Leila Pereira e a coletiva só para mulheres

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Opinião

Leila Pereira e a coletiva só para mulheres

Espero que acontecimentos como esse não sejam mais um motivo de destaque e de celebração, mas sim parte da rotina do esporte


15 de fevereiro de 2024 - 15h05

(Crédito: Reprodução/Instagram)

Em janeiro desse ano, a presidente do Palmeiras – Leila Pereira – fez a primeira entrevista coletiva do clube e fez dela um momento histórico. Pela primeira vez na história do futebol mundial, um clube fez uma coletiva apenas para jornalistas mulheres.

Em comunicado aos veículos de imprensa, Leila pediu ainda para que enviassem também câmeras mulheres. O que não aconteceu, pois é extremamente raro encontrarmos mulheres desempenhando essa função.

A iniciativa recebeu críticas, às quais Leila respondeu de forma muito direta. Em suas falas, ela ressaltou o quanto o futebol ainda é um ambiente extremamente masculino e como ela foi por várias vezes a única mulher presente em reuniões nas ligas e confederações.

Em sua fala, Leila disse:

“É um prazer imenso estar aqui com vocês, nesse dia que posso dizer, sem sombra de dúvida, para nós mulheres, é histórico. Não conheço nenhum caso no mundo de uma entrevista coletiva com convidadas apenas mulheres. Quando nós tivemos essa ideia, nós divulgamos e, por incrível que pareça, ouvi muitas perguntas de homens ‘por que só mulheres?’. Digo para esses homens: não sejam histéricos! Não é isso que dizem pra gente? Queria que esse encontro simbolizasse para os homens que eles sintam em uma hora o que nós mulheres sentimos desde que nascemos”, começou por dizer.

“Nós, mulheres, não queremos privilégio, queremos ter a oportunidade de mostrar que somos competentes e queremos espaços nesse mundo do futebol, que é tão masculino. Vou em reuniões na CBF, FPF, Libra, e só tem homens. Me sinto extremamente solitária, então nós temos que dar um basta isso. Não pode ser normal ter uma só mulher à frente de um grande clube na América do Sul. Isso acontece porque sofremos diversas restrições, que nos impedem de chegar onde podemos estar”, prosseguiu.

“Esse é o motivo da nossa coletiva. Muitas pessoas esperando uma notícia bombástica, mas pra mim é relevante que a sociedade enxergue nós, mulheres, como pessoas que têm capacidade. Nós podemos estar onde quisermos. Que hoje seja um marco para nós, mulheres”, concluiu.

Nessa coletiva, Leila escancarou o machismo que insiste em permear o universo do futebol. Ninguém jamais questionaria uma entrevista que tivesse a presença apenas de jornalistas homens, fato que acontece com bastante frequência, inclusive.

Mulheres presentes em cargos relevantes no futebol é uma realidade em transformação. Ainda somos menos de 5% dos cargos de liderança, mas em 2019 esse número era menos de 2%. Nomes emblemáticos como o de Leila Pereira ou de Marina Granovskaia, que comanda o Chelsea da Inglaterra desde 2014, são raros. Aliás, vem da Inglaterra o maior exemplo de inclusão nesse sentido. Lá, além de Chelsea, Tottenham e Leicester também têm diretoras mulheres. Debbie Hewitt, em 2021 assumiu a gestão da Federação Inglesa de Futebol, levando uma mulher ao cargo pela primeira vez. Na sequência, virou vice-presidente na FIFA, responsável por representar a UEFA junto à entidade. E, desde o ano passado, a principal liga da Inglaterra, a Premier League, é presidida por uma mulher pela primeira vez.

O futebol inglês vem transformando a realidade das mulheres no esporte. A seleção feminina é adorada na Inglaterra e serve de inspiração para as meninas. Mas para chegar a esse resultado, foi preciso mais investimento no torneio nacional e o aumento da cobertura do futebol feminino. O nível de excelência da seleção inglesa feminina chegou a tal ponto que a treinadora da equipe feminina, Sarina Wiegman, foi cogitada para assumir o comando da equipe masculina. Seria épico e histórico, mas ainda não foi dessa vez que vimos uma mulher assumir como treinadora de um time de homens.

Tornar a seleção feminina inglesa um time quase imbatível só foi possível graças à melhora considerável do nível dos times da Inglaterra. Todos passaram a atuar como profissionais. Além disso, a mídia inglesa se empenhou em dar mais espaço para a cobertura feminina, ainda que ela seja muito aquém da exposição do futebol masculino. Tudo isso veio acompanhado de investimentos e um crescente interesse das marcas pelo esporte feminino, ponto fundamental e crucial para essa mudança.

Ainda há muito espaço para crescer, mas vemos cada vez mais bons exemplos de inclusão das mulheres no futebol. A coletiva de Leila Pereira só com mulheres foi um marco, mas espero que no futuro possamos ver mais mulheres nesse ambiente, para que acontecimentos como esse não sejam mais um motivo de destaque e de celebração, mas sim parte da rotina do esporte.

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