Adriana Alves: “Felicidade é barata, depressão é cara”

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Adriana Alves: “Felicidade é barata, depressão é cara”

A co-fundadora da Lupa afirma que não dá para falar de relações de trabalho sem falar de relações de poder


30 de novembro de 2023 - 12h12

Por Carolina Scorce

Adriana Alves, co-fundadora da Lupa: “É preciso que a relação de trabalho seja um pacto flexível”

Adriana Alves tem influência e sabe usá-la. A lista de cargos e títulos é longa. Participou da delegação do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), foi eleita pelo Boticário como uma das 200 mulheres 40+ mais inspiradoras, pela campanha Geração Botik, criada pela agência de comunicação Pros, foi a voz de reportagens da Forbes, Estadão, revista Pais e Filhos, e é palestrante do Tedx São Paulo sobre diversidade e inovação e LinkedIn Top Voice sobre equilíbrio e trabalho. Adriana usa essa autoridade e os créditos conquistados para falar com empresas e altas lideranças sobre segurança psicológica e capital humano.

Uma mulher negra, com mais de 40 anos, nascida e criada na periferia de São Paulo, após vários anos de atuação no mundo corporativo, tendo sido vice-presidente de diversidade, equidade e inclusão do Banco BNP Paribas, Adriana divide seu tempo entre seu próprio empreendimento, a Lupa, plataforma que avalia o nível de segurança psicológica dos colaboradores das empresas, e sua atuação como conselheira em empresas como Fama Investimentos, Universidade São Judas Tadeu e Plurie BR.

E porque o trabalho é uma dimensão muito importante da vida, Adriana tem a chance, justamente por ser quem é, de levar realidade e diversidade para ambientes que, como explica, “são feitos, projetados e pensados para um único tipo de pessoa: o homem branco”.

Adriana entrou no mundo corporativo muito cedo e, a duras penas, se manteve nesse lugar que não era o seu. Conseguir ficar nesse ambiente foi o maior desafio. “Sendo uma mulher negra e periférica, a primeira barreira é ter que se forjar o tempo todo. Você nunca está inteira ali. Eu tinha que me adaptar sempre e me diminuir para caber naquele espaço porque não era feito para mim e isso era muito incômodo”, recorda.

Ao cruzar a cidade em um ônibus, trajeto que pode levar às vezes duas horas ou mais na capital paulista, para chegar à avenida Faria Lima ou à região da Berrini, centros empresariais de São Paulo, Adriana se confrontava com realidade completamente diferente do dia a dia no seu bairro de origem.

No cafezinho, tão valorizado pelas áreas de gestão de pessoas, se falava sobre viagens que Adriana nem sonhava em fazer. O dinheiro que tinha para almoçar não pagava os restaurantes ao redor do escritório. Ou seja, não basta apenas recrutar pessoas com perfis mais diversos, é preciso criar condições de trabalho para que esses talentos permaneçam. E a flexibilidade nas regras é fundamental para que isso aconteça. “O mais difícil não era realizar o trabalho. Nem de longe. Mas compreender os códigos desse ambiente. E esses códigos são feitos por um tipo de pessoa com um tipo de fenótipo. São essas pessoas que ditam as regras”, afirma.

Essa forma de enxergar as coisas explica a frase que abre o perfil do LinkedIn de Adriana, de autoria da intelectual feminista norte-americana Audre Lorde: “Não são as nossas diferenças que nos dividem, mas a nossa incapacidade de reconhecer, aceitar e celebrar essas diferenças”. Ela é enfática ao dizer que essas diferenças precisam ser reconhecidas, legitimadas, e que “não dá para falar de relações de trabalho sem falar de relações de poder”.

Quem são as pessoas que saem de casa e deixam os seus filhos com outras pessoas para seu cuidado? Quem são as pessoas que precisam levar duas horas no trajeto de casa para o trabalho? Essas são perguntas mínimas que precisam ser feitas ao se considerar as condições de trabalho pactuadas.

Adriana não mora mais na periferia, mas tampouco trabalha presencialmente todos os dias, um modelo que, em sua vida, não funciona bem. “Quando posso ficar mais tempo com as minhas filhas, alivio também a minha rede de apoio, que é composta por outras mulheres. Se uma mulher sai de casa, deixa o filho com a avó, e vai para o escritório para fazer uma reunião online, ela deixa de ver sentido em toda a vida, não é só no trabalho. O que estou observando nas empresas é que essa volta para o presencial, que está sendo forçada, não tem a ver com resultado, e sim com controle”, afirma a gestora e conselheira.

Esse comportamento das empresas a preocupa. Adriana diz que as novas gerações estão mais interessadas em bem-estar do que em status e sabem que é possível desempenhar seu trabalho em casa ou sua cidade natal e que não irão aceitar os modelos impostos. A questão é: quem vai ter esse poder de escolha? “Quem já tem as melhores condições e oportunidades na vida. Aquela menina negra da periferia não vai ter essa capacidade de negociação, e nem de escolha. Ela vai gastar mais dinheiro para trabalhar, vai ter menos tempo para estudar, para o lazer e, com isso, vamos manter o nosso patamar de desigualdade”, responde.

Segundo a gestora, está enraizada em parte do meio corporativo a ideia de que todas as pessoas trabalhando juntas no mesmo espaço traz mais dinheiro para a empresa. Ela explica que essa idealização não encontra lastro na realidade e usa como argumento o elevado índice de trabalhadoras com adoecimento mental. “Estão assim, fundamentalmente, porque estão sobrecarregadas. Seja no formato presencial ou no remoto”, explica.

E Adriana tem vários estudos e pesquisas que corroboram sua tese. De acordo com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), 209.124 mil pessoas foram afastadas do trabalho no ano passado por transtornos mentais como depressão, distúrbios emocionais e Alzheimer. Em 2021, foram 200.244 afastamentos registrados.

“Não dá para voltar atrás. As pessoas já descobriram que existem outras maneiras de trabalhar. É preciso que a relação de trabalho seja um pacto flexível, que leve em conta o perfil e as necessidades de cada uma. Isso faz com que estejam felizes e satisfeitas. Flexibilidade traz felicidade e felicidade é barata. Depressão é caro. Essa é a mensagem que tento passar para as lideranças”, diz.

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