David Laloum: “Todos sairemos diferentes”

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David Laloum: “Todos sairemos diferentes”

Para o presidente da Y&R, líderes serão mais lembrados na pós-pandemia pelas escolhas que fizeram como seres humanos do que como executivos

Renato Rogenski
1 de abril de 2020 - 6h00

David Laloum: “De maneira geral, pararemos de tratar nossos públicos como clientes, e os trataremos como pessoas” (Crédito: Arthur Nobre)

O ano de 2020 tem sido especialmente desafiador para a Y&R. Muito antes de começar a sentir os impactos da pandemia causada pelo novo coronavírus, a agência teve parte da sua sede invadida pelas enchentes que atingiram São Paulo no início do mês de fevereiro, obrigando a empresa a se reorganizar às pressas para o trabalho remoto até que um outro escritório abrigasse seus funcionários. Nem bem se acostumaram com a casa provisória, há pouco mais de duas semanas os colaboradores já tiveram mais uma vez de partir para o plano B, ao voltar ao home office, dessa vez para seguir as recomendações de isolamento social propostos pela Organização Mundial da Saúde para conter a disseminação da Covid-19. Na entrevista a seguir, o presidente da agência, David Laloum, faz uma análise sobre os impactos da pandemia na empresa, no mercado publicitário e na economia do País.

Meio & Mensagem – Em fevereiro, a Y&R teve de lidar com uma enchente e, pouco tempo depois, teve de se adaptar aos impactos do coronavírus. Como a operação tem feito para superar esses dois baques?
David Laloum –
As enchentes nos deixaram duas semanas sem nosso escritório principal (o da Marginal Pinheiros), o que nos obrigou a passar de repente 70% da agência para modo home office, sem interrupção nem atraso de entrega para os nossos clientes. Essa fatalidade nos deixou muito mais preparados para pivotar 100% da agência em trabalho remoto 20 dias atrás. Adversidades sempre geram aprendizados e novas soluções. Estamos saindo de dois anos de crescimento acelerado da Young, porém o cenário da Covid-19 traz desafios muito além do home office para todos. E estamos enfrentando-os com resiliência, atenção, cuidado ao outro e buscando tomar decisões inteligentes todos os dias. Tenho dito nesses últimos dias que seremos mais lembrados nesse período pelas escolhas que fizermos como seres humanos do que como executivos.

M&M – Como a agência está encarando esse período de pandemia?
Laloum –
 Estamos lidando com foco, velocidade na nossa reorganização operacional e proximidade intensa com todos os nossos clientes para ocupar o nosso papel de consultores de confiança, sem esquecer do cuidado com os nossos colaboradores e parceiros em um momento desconhecido que gera fragilidade. Esse é um momento de responsabilidade na hora de fazer escolhas para não misturar curto prazo tático com o futuro da nossa empresa.

M&M – Na parte prática, como o trabalho tem funcionado?
Laloum –
Temos alguns sistemas tecnológicos e de workflow que nos permitem uma gestão remota dos nossos trabalhos sem fricção. Além disso, implementamos várias rotinas diferentes para nos adaptar a um ambiente totalmente virtual: temos por exemplo uma call diário de 45 minutos com todas as lideranças da agência. Cada líder também se reúne todos os dias por calls com seus respectivos times. E vamos manter o ritmo de uma live semanal com 100% da agência, entre muitas outras iniciativas. Para esse momento, precisamos além de tecnologia um processo de trabalho muito fluido com autonomia que é primordial para resolvermos problemas e questões do cotidiano que mais do que nunca requerem agilidade.

M&M – O que muda na produtividade da agência com o sistema home office? É um modelo que deve ser utilizado com mais frequência pela agência, mesmo após a quarentena?
Laloum –
Sem dúvida nenhuma. Porém com um equilíbrio melhor entre trabalho dentro e fora de casa, diferente de uma situação involuntária como agora. Na questão da produtividade, até pela situação sem precedentes que gera urgência de um lado e novos modos de pensar e agir do outro, acredito que nunca fomos tão ágeis do que as últimas semanas criando recomendações, projetos ou campanhas às vezes em 24h. Nossa preocupação está na aprendizagem de se trabalhar em casa sem confundir vida pessoal e vida profissional. Tem que ter horários, pausas, café da manha, almoço e jantar. Tem que respirar, se cuidar, cuidar dos seus familiares, fazer aulas, cozinhar também além de trabalhar.  Bem-estar e saúde mental serão desafios imensos para todos se o confinamento se estender, o que é de se prever. Abrimos canais de assistência para os nossos funcionários com objetivo de apoiá-los nesse momento.

M&M – Quais devem ser os impactos na economia e no mercado publicitário brasileiro em curto, médio e longo prazos?
Laloum –
Os impactos já são e continuarão sendo brutais para a economia como um todo, com exceção de poucos segmentos do mercado. Esses impactos como já estamos vendo não se reequilibrarão este ano, e moldarão novos relacionamentos, novos comportamentos de consumo, e por consequência novos modelos de negócios, incluindo o nosso segmento. Todos sairemos diferentes, e acredito para melhores, depois de tudo que já passamos e ainda vamos viver nos próximos meses.

M&M – Qual sua opinião sobre a visão do presidente da República e de alguns empresários importantes, que acreditam que as pessoas precisam voltar ao dia a dia o quanto antes para não gerar um colapso econômico no País?
Laloum –
Eu não sou científico, então minha legitimidade em cima de um assunto tão técnico é zero. Por isso, acredito que devemos seguir as orientações da OMS que acabam sendo cumpridas pela quase totalidade dos países. Penso que as instituições tanto públicas quanto privadas têm que tomar medidas extraordinárias gerando um aporte financeiro sem precedente para apoiar o sistema econômico e assim todas as pessoas impactadas. O Brasil nesse aspecto é mais desafiador pela sua estrutura social. Mas tem como mitigar os impactos econômicos sem colocar em risco centenas de milhares de vidas.

M&M – Como os clientes estão reagindo aos impactos do coronavírus?
Laloum –
Essas duas primeiras semanas foram extraordinariamente intensas por questões operacionais de todos os nossos clientes. E também por uma busca de entendimento de cenários em todos os aspectos e tomada de ações imediatas para os negócios, incluindo o marketing. Colocamos vários projetos em pé e campanhas no ar em dias ou horas. Estamos agora trabalhando com eles em três frentes sobre aspectos mais estratégicos no contexto Covid-19: o papel da empresa para a sociedade, o papel das marcas na vida das pessoas e novas soluções de negócios para buscar melhorar o faturamento. Estamos neste último quesito unindo esforços com os clientes, buscando onde um pode ajudar outro.

M&M – Como você está acompanhando os desfechos da pandemia na França, seu país natal? A família está toda bem?
Laloum – A família está bem. Meus pais confinados. A França mesmo sendo um país rico com governo progressista e sistema de saúde público teve muitas dificuldades e cometeu muitos erros em subdimensionar os impactos avassaladores da pandemia. Uma lição que deveria nos sensibilizar.

M&M – Quais os aprendizados que a publicidade pode extrair de períodos de crise e imprevisibilidade como este?
Laloum –
Eles são de várias ordens. A agilidade, na capacidade de agir e reagir em uma velocidade extraordinária a novos contextos. A utilidade, ao trazer conteúdo que seja útil para as pessoas, em um momento aonde elas estão desnorteadas e fragilizadas. A empatia, para aprender definitivamente a se colocar no lugar do outro. E a responsabilidade, para fazer nossas empresas e marcas se comportarem como empresas cidadãs. De maneira geral, passaremos de uma visão de customer centricity para human centricity, aonde pararemos de tratar nossos públicos como clientes, mas sim como pessoas.

Crédito da imagem de topo: DKosig/iStock

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