Diversidade além do quadro: a importância de porta-vozes negros

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Diversidade além do quadro: a importância de porta-vozes negros

Formação de porta-vozes pretos auxilia na diversidade, construção de carreira e evita crises

Thaís Monteiro
23 de novembro de 2021 - 6h00

 

(Crédito: Wellphoto/Shutterstock)

A questão da diversidade perpassa diversos âmbitos de uma corporação, inclusive quem a empresa coloca como porta-voz para dialogar com a imprensa. Se a empresa se esforça em contratar funcionários pretos para compor seu quadro de funcionários, nem sempre a diversidade se reflete no profissional que irá representar a marca publicamente.

A falta de diversidade em matérias jornalísticas foi a motivação da jornalista Helaine Martins ao fundar o banco de dados Entreviste um Negro, em conjunto com o portal Mundo Negro, em 2005. O banco de dados reúne profissionais negros de diversas áreas dispostos a dar entrevistas. “O Entreviste um Negro existe para ser uma ferramenta na luta por um jornalismo que reconheça seu compromisso de ser plural, inclusivo e transformador”, diz o site do projeto. Helaine faleceu em julho deste ano após uma parada cardiorrespiratória, aos 41 anos. Em agosto, a Editoral Mol fez uma seleção de estágio para contratar um eatudande de jornalismo para alimentar a plataforma. O nome do programa homenageou a jornalista: Bolsa Helaine Martins.

No mercado publicitário, há alguns projetos que dão visibilidade a profissionais pretos da área, entre eles: o grupo Publicitários Negros, cuja proposta é potencializar a troca de experiência entre os profissionais negros da publicidade, mas que tem um perfil no Instagram onde que publica foto, nome, cargo e empresa de profissionais; e o podcast Afropausa, que debate diversos assuntos com profissionais negros de diferentes áreas, mas principalmente da comunicação.

Na opinião de Lisiane Lemos, co-fundadora do Conselheira 101, projeto que visa incluir de mulheres negras em conselhos de administração, há uma falta de representantes negros e essa está ligada diretamente a falta de profissionais pretos em cargos de liderança. “As empresas têm um número restritos de porta vozes, normalmente que ocupam cargos de alta liderança. Como temos poucos líderes em cargos de alta liderança, tais como VP, Diretor ou C level, não existe uma atuação desses porta vozes”, explica.

O porta-voz é a voz da empresa e tem como responsabilidade passar a posição institucional da corporação à qual ele presta serviços a partir de informações claras, precisas e com empatia, que é o que diferencia o comunicar do informar, segundo Edson Giusti, sócio-diretor da agência de PR Giusti Comunicação. “É uma questão macro, mas eu acho que com o aumento haverá sim cada vez mais porta-vozes negros há medida que eles passam a ocupar posições”, opina.

Atualmente, no entanto, enquanto as redes sociais se tornam ameaças para a integridade de uma empresa a depender do conteúdo publicados por seus colaboradores, o fato de todo posicionamento público ser atrelado a companhia pode ser um caminho para que esse problema encontre uma solução. “Minha sugestão seria formar todos os funcionários quanto ao cuidado e oportunidades dos meios de comunicação e que a nossa postura nas redes sociais pode ter consequências para a nossa carreira. Além disso, formar pessoas em diferentes níveis, independente de ter um cargo de gestão ou não”, indica Lisiane. Em adendo, promover um colaborador a porta-voz é uma forma de ajudá-lo na sua construção de carreira.

Conforme Giusti, esse treinamento é importante pois se um profissional falar em nome da empresa sem autorização, ou citar cases que não têm autorização, isso pode se tornar um problema estratégico. O tempo de treinamento, explica, depende da facilidade de cada profissional e da área. Um segmento mais técnico, por exemplo, demanda mais preparo. A partir da instrução, o profissional deve passar constantes sessões de media training, e preparações antes de palestras ou entrevistas.

“Depois, é o próprio dia a dia e experiência de dar várias entrevistas que vai refinando esse preparo. Há várias dinâmicas. Em entrevistas para publicações em texto, eu posso corrigir, falar em off; já em televisão, é outro treinamento sabendo que aquele conteúdo vai ser editado; ter domínio da comunicação verbal e não verbal. Tivemos treinamento para lives porque são outras dinâmicas. Nada tira isso da experiência e do dia a dia”, coloca.

Como toda comunicação é bi ou muiltilateral, o jornalista também tem seu papel na busca por fontes mais representativas da sociedade brasileira. Na perspectiva de Lisiane, o repórter tem a função de desafiar as empresas a trazerem novas vozes. “Se nenhuma pessoa tiver a oportunidade de apresentar novos caminhos, seguiremos sempre trilhando os mesmos. É importante o jornalista dar tranquilidade à empresa quanto às perguntas, enviando previamente e respeitando o acordado com as fontes (sem surpresas no meio da entrevista). Entendo o cuidado das equipes de comunicação em preservação de marca”, propõe.

**Crédito da imagem no topo: Robuart/Shutterstock

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