Venda direta é receita principal de estúdios de animação

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Venda direta é receita principal de estúdios de animação

Primeiro mapeamento do setor realizado pelo Anima Mundi mostra uma indústria menos dependente de editais e financiamento público

Thaís Monteiro
25 de julho de 2019 - 16h17

Na quarta-feira, 24, durante o Anima Forum, encontro entre animadores, cineastas e produtores que acontece durante a 27ª edição do Anima Mundi, a plataforma apresentou a primeira edição do Mapeamento da Animação no Brasil, pesquisa realizada com a consultoria JLeiva Cultura & Esporte, sobre o cenário da indústria brasileira de animação.

 

Curta Drawing Life , de Luciano Lagares, ganhou em três categorias na 27ª edição do festival, incluindo a de Melhor Curta Brasileiro (Crédito: Reprodução)

A partir de um questionário online enviado a produtoras e profissionais freelancers no mailing do Anima Mundi e disponibilizado online, entrevistas de profundidade e grupos focais, a pesquisa constatou que, para 52% dos entrevistados (455 produtores) a venda direta dos produtos é a principal fonte de recursos para a atividade. Editais e fundos setoriais figuraram em 18 e 11% das respostas, respectivamente. Para 5% dos produtores, o patrocínio direto e a lei do audiovisual ainda são as principais fontes de recursos.

A maioria dos estúdios, 60% deles, foram fundados a partir de 2011, um ano antes de entrar em vigor a lei 12.485, que estabeleceu uma cota de conteúdo nacional para canais de TV por assinatura exibirem em sua programação, o que deu um novo fôlego para o mercado de produção audiovisual brasileiro e também se refletiu na animação.

Esses dados, de acordo com Cesar Coelho, diretor e fundador do Anima Mundi, foram um dos insights mais surpreendentes do mapeamento pois a plataforma acreditava que o mercado ainda dependia de editais e fundos setoriais. “Embora eles sejam fatores importantíssimos e estruturantes, já não são o principal meio de sustentação do setor. Na pesquisa mostrou que o principal meio de sustentação é a venda direta, venda das suas produções”, diz. Em 2018, produtoras e freelancers faturaram R$ 151 milhões.

Grande parte dessa venda vai para as redes sociais, principal destino de conteúdo. Cerca de 67% dos entrevistados diz produzir para elas. A TV é destino para 59% dos produtores; festivais nacionais para 56%; TV aberta para 53%; festivais internacionais para 45%; e cinema para 36%. Apesar de plataformas de streaming e vídeo sob demanda estarem em uma crescente, com novos players sendo anunciados e com lançamentos previstos para este semestre, apenas 33% dos produtores brasileiros fazem conteúdo para elas.

De acordo com Cesar, outra mudança de paradigma para a indústria é o foco cada vez maior das produtoras na criação de conteúdo próprio. O principal produto é o curta-metragem, com 73% das respostas. A publicidade ainda se mostra relevante no cotidiano da produção de animação, figurando em segundo lugar, com 56% dos votos. Seguem eles: séries de TV (54%), videografismo (42%), longa-metragem (30%), técnico-científico (22%), interativa/realidade virtual (15%), média-metragem (14%), game (13%) e aplicativo (12%). Os adultos são o principal público das obras, seguido de infantojuvenil e juvenil.

Isso significa uma mudança de paradigma muito importante, porque a produção de conteúdo tem a característica de demorar mais tempo para ser feita. Quando você se envolve em uma produção de uma série, você sabe que sua estrutura vai estar envolvida nisso durante anos, de dois a quatro. Isso é fundamental para você pensar na estrutura do seu negócio, investimentos, tamanho do negócio. Eu acho que as expectativas para o futuro é que o mercado de conteúdo vai ficar cada vez mais significativa para o mercado de animação, o que garante investimentos na área de treinamento de pessoal, propriedades intelectuais, empresas de animação com porte maior: de médias a grandes empresas”, avalia Cesar.

Ao mesmo tempo que esse maior foco em conteúdo proprietário e independência significam uma evolução da indústria, eles também representam desafios para que o setor se mantenha em evolução e dê continuidade a produção. De acordo com o executivo, o setor de animação no Brasil deixou de ser um ambiente de pequenas empresas para um mais plural, com estúdios de animação de diversos portes, inclusive grandes companhias que devem garantir que o investimento feito seja compensado ao longo dos anos com planejamentos a longo prazo. “No exterior, eles tem planejamentos e encomendas para os próximos dez anos. Estamos começando a amadurecer o mercado nesse sentido. Quanto mais caminharmos nessa direção, mais potente ele será”, diz o diretor do Anima Mundi.

As empresas consultadas empregam cerca de 2 mil pessoas, mas 54% delas tem de um a seis funcionários. Apenas 6% tem mais de 41 funcionários. Entre outros aspectos limitantes para um possível crescimento da indústria, foram apontados burocracia, condições de financiamento, captação de investimento e acesso ao mercado interno. Cesar lembra que aspectos relacionados ao governo não estão refletidos nesse levantamento pois a pesquisa foi iniciada em 2018.

A intenção do Anima Mundi é realizar uma próxima edição da pesquisa em, no máximo, dois anos, disponibilizando os dados em outros lugares, inclusive por meio da própria Ancine, para criar uma plataforma de consulta rica de informações para o mercado.

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