“O consumo de notícias torna as pessoas doentes”

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“O consumo de notícias torna as pessoas doentes”

Arianna Huffington, co-fundadora do The Huffington Post e ativista pelo fim do burnout, explica os impactos da comunicação na saúde mental

Thaís Monteiro
14 de novembro de 2019 - 6h00

No dia 6 de abril de 2007, Arianna Huffington, co-fundadora e, na época, presidente do The Huffington Post, acordou deitada em uma poça de sangue no seu escritório de casa. Na queda, ela bateu a cabeça na quina da mesa, o que provocou uma fratura na mandíbula e um corte acima do olho. Foi uma crise de burnout.

Há 12 anos, o Huffington Post (hoje HuffPost), não era o que é hoje. Na época, Arianna estava trabalhando 18 horas por dia para construir o que viria a se tornar um dos primeiros cases de publisher totalmente digital a contar com colaboradores de todo o mundo. A companhia tinha dois anos e foi adquirida pela AOL somente em 2010.

 

“Líderes e gerentes da indústria da comunicação têm que ser particularmente conscientes de que, embora o ciclo de notícias aconteça 24/7, o dos seus funcionários não pode” (Crédito: Denise Tadei)

Devido à essa experiência, desde 2016 e já fora do HuffPost, Arianna trabalha com o  objetivo de ajudar a acabar com o burnout no mundo. Através da sua empresa, Thrive Global, da qual é CEO, ela viaja o mundo fazendo palestras — como fez no Brasil, em evento realizado pela Flix Media, na semana passada –, criando conteúdo e promovendo iniciativas para empresas construírem uma cultura com menos impacto na saúde mental de seus colaboradores. “Estresse e burnout são uma epidemia global e a primeira causa de resultados negativos na saúde em todo o mundo”, afirma.

Por vir de uma indústria que lida com o fervor dos acontecimentos a todo o momento — o jornalismo –, Arianna compartilhou com Meio & Mensagem  sua visão sobre como tratar a saúde mental na área da comunicação.

Meio & Mensagem – Comunicação e saúde mental tem uma correlação?
Arianna Huffington – Eu acredito que há muitos fatores levando o mundo para uma crise de saúde mental. Uma delas é uma desilusão coletiva que precisamos estar sempre conectados para sermos bem sucedidos e produtivos. E agora há o fato de que estamos cada vez mais viciados em nossos celulares. E temos dificuldade em desconectarmos. Nossa atenção é um prêmio e muitos a estão disputando.

No Brasil ouvimos constantemente que ler as notícias atuais causa estresse mental. Você acredita que o noticiário pode ter um impacto negativo para a saúde mental?
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que consumir notícias sobre política literalmente faz as pessoas doentes. Eu acredito que isso se aplique no Brasil. As pessoas precisam estar engajadas politicamente, isso é claro, mas eu acho que estão fazendo de uma forma que é insustentável. Estar perpetuamente indignado não é sustentável. Precisamos ir votar, encorajar os demais a votarem, fazer algo acontecer do que só reclamar.

O jornalismo deveria estar dando soluções?
Eu acho que seria ótimo se o jornalismo focasse mais em notícias boas, coisas positivas acontecendo, porque há uma tentação em focar no negativo, no que não está funcionando. E eu acho que é importante focar no que está funcionando.

Como profissionais da área da comunicação em geral podem lidar melhor com a pressão de estar sempre online e atualizado?
Mudando seu mindset. Eles precisam reconhecer que eles vão ser mais produtivos e mais efetivos mesmo tirando um tempo para si mesmos. Não é uma troca de um pelo outro.

Do outro lado, como as empresas de mídia ou agências e marcas podem auxiliar no tratamento da saúde mental de seus funcionários?
Cuidar da saúde mental e não fazê-los caminhar para um burnout pode ser particularmente desafiador em empresas de mídia e marketing, porque a tecnologia criou um ciclo de trabalho de 24 horas, por sete dias da semana e a expectativa de que o funcionário esteja sempre ligado. Então, líderes e gerentes têm que ser particularmente conscientes de que, embora o ciclo de notícias aconteça 24/7, o dos seus funcionários não pode ser. Além disso, eles precisam promover uma forma de trabalho sustentável para que sejam valorizados e promovidos os funcionários que prezem o seu bem-estar e não aqueles que estão em um ciclo de burnout. Isso significa encorajar seus funcionários a se desligarem e recarregarem, se certificando de que, quando eles estão offline, que realmente estejam.

Como ficar desconectado pode melhorar sua criatividade?
Estudos têm mostrado que os momentos em que estamos desconectados e nossas mentes são permitidas a vagar são aqueles em que somos mais criativos. Não é surpresa, por exemplo, que muitas das nossas melhores ideias vêm quando estamos no banho. Se livrar da mínima possibilidade de nossa atenção ser roubada a qualquer segundo por nossos telefones liberta nossa mente para fazer conexões e pensar de formas não-convencionais.

Tendo dito tudo isso, há diversas tecnologias surgindo como IA, VR, AR e muitos outros. Como você imagina que nossa relação com a tecnologia será daqui para frente?
Nós estamos em um ponto de inflexão no nosso relacionamento com a tecnologia. Agora nós percebemos que a tecnologia é apenas uma ferramenta, que pode ser usada para aumentar nossa humanidade ou para consumi-la. As pessoas estão demandando tecnologia que são mais focadas no humano. E essa é a próxima fronteira nessa indústria: tecnologias que nos ajudam a criar tempo e espaço para realmente nos conectarmos uns aos outros e com nós mesmos, uma tecnologia que seja um meio para nos ajudar a desconectarmos de outras formas de tecnologia.

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