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Não vá se perder por aí

Desafiar verdades é muito difícil, um jogo delicado mesmo quando sabemos que a tarefa é mais que necessária — e a criatividade tem um papel importante neste contexto


29 de outubro de 2018 - 12h44

Crédito: Jack Taylor/GettyImages

Como a maior parte das pessoas que conheço, dei voltas em volta do mundo nestas semanas, tentando encontrar o espaço possível entre defender minhas razões e encontrar um novo ponto de equilíbrio. Passei as horas me informando o quanto cabia e me empenhando ao máximo numa espécie de reforma emocional involuntária. Um dia depois do outro. Hoje não entra no papel nenhum assunto que não sejam os excessos das eleições. Com tudo aquilo que elas trouxeram à superfície, este é o único assunto que importa. Mas o meu serviço também é outro e não posso deixá-lo de lado. Vivo de juntar as pontas soltas. Se eu posso contribuir de alguma maneira, só pode ser por ali.

Mesmo assim, completar meu texto deste mês foi um desafio. Encarei a tarefa sem saber onde chegar. Fiz o que sempre faço nas horas em que procuro o fio no meio do bolo e garimpei sentido nas ideias mais poderosas que cruzaram o meu caminho. Falo daquelas ideias que não cabem, mas insistem em mostrar que estão presentes.

Um dia apareceu a cena final de O Sétimo Selo, filme clássico de Ingmar Bergman de 1958, no topo da página de um amigo. O filme conta a história de um cavaleiro medieval que, de volta de uma longa cruzada, encontra seu país devastado pela peste. Na cena, uma trupe de teatro dança de mãos dadas a caminho da morte inexorável. Minha parte favorita do filme é um jogo de xadrez entre o cavaleiro e a morte. Ele procurando ganhar tempo, ela desfrutando a pausa. Enquanto isso, as verdades de uma era inteira caíam todas de maduras. Final dos tempos. Outra dança, cada uma em sua hora.

Corrupção, preconceito e violência são realidades culturais enraizadas, que precisam ser desmontadas. Hoje estão escancaradas à espera de novas definições. O momento acelerado as expõe para uma avaliação crítica intensa. Talvez estejam se esgotando, talvez se adaptando. Desafiar verdades é muito difícil, um jogo delicado mesmo quando sabemos que a tarefa é mais que necessária.

Parte da mesma família das verdades eternas da nossa cultura, a criatividade tem um papel importante neste contexto. Se nossa crença em uma criatividade excepcional tem eco na realidade, temos agora a chance de exercê-la em uma nova plenitude. Temos um superpoder inato, vamos usá-lo já.

O poeta Torquato Neto, em seu breve e poderoso manifesto Pessoal Intransferível, de 1971, fecha a conversa com uma proposição visceral e definitiva: “leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi”.

É isso. Enquanto erramos a mão e entramos fácil no combate do inaceitável por meio do inconcebível, torço por pequenas vitórias que me tragam de volta a leveza de espírito e o olhar crítico que preciso para viver o meu trabalho e exercer a minha vida.

Procurei a ponta na notícia do álbum do Massive Attack, música traduzida em DNA, lançado em forma de tinta spray. Li torcendo para que o graffiti volte para as ruas da minha cidade, desta vez em forma de música. E para que as pessoas voltem para as ruas sem medo de vestirem suas ideias. Procurei na Menina com Balão de Banksy, (auto)retalhado ao vivo em pleno leilão da Christie’s assim que o martelo baixou no valor de um milhão de libras esterlinas. Não importa se tudo não passar de promoção. Quem conhece o Exit Through the Gift Shop, filme de 2010, sabe que Banksy expõe o limite criativo de sua farsa com talento. Ele sabe que seu trabalho fala diretamente com o emocional das pessoas no palco, nas ruas e na mídia. Sua contradição é o que realmente importa.

Mas tudo parece tão efêmero. O que eu antes imaginava genial parecia menor de repente, e voltei rapidinho à ciranda dantesca do nosso momento. O buraco, aqui, é mais profundo nestes dias e precisamos de muito mais ideias geniais que a norma para mantermos nossa sanidade naquele velho nível de desequilíbrio criativo. Torquato, Bergman e Banksy furaram o cerco raivoso das eleições no meu feed, lembrando que nem tudo é obscuro para quem vê o mundo com um olhar imperfeito. Assim, me conectei com aqueles que, como eu, olham por meio dos buracos da razão. O exercício neste instante é cansativo, mas fundamental. Que a poesia nos salve quando a lucidez se esgotar.

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