Opinião

O preço do significado

Uma análise semiótica de risco poderia ter evitado a crise pela qual a Havaianas passou, e serve de alerta para o campo minado que serão os próximos anos na comunicação

Abel Reis

Co-fundador da Logun Ventures e da Dolores Consultoria 5 de janeiro de 2026 - 10h55

Não foi um balanço financeiro ruim nem um tropeço na cadeia de suprimentos que fez as ações da Alpargatas tremerem na B3 recentemente. O gatilho foi uma palavra: “direito”. A polêmica envolvendo o comercial de fim de ano da Havaianas, protagonizado por Fernanda Torres, trouxe à cena um desafio para o marketing brasileiro: a importância de prever como símbolos tradicionais serão “sequestrados” pela guerra cultural. E é aqui que muitas vezes falham as ferramentas tradicionais de pesquisa: elas tendem a captar a compreensão racional das mensagens, deixando de lado a reação visceral e política que ocorre no “mundo selvagem” da polarização.

Mas se o erro foi de interpretação, a solução pode estar na ciência da interpretação. Acredito que metodologias de análise semiótica de risco (no Brasil, ainda muito restritas à academia) poderiam ter evitado essa crise, o que as torna ferramentas obrigatórias para marcas que desejam atravessar sem grandes impactos, o campo minado dos anos que virão pela frente. A justa defesa da Havaianas e de seus criativos foi a de que a campanha era sobre sorte e atitude. “Não comece com o pé direito, comece com os dois”, dizia o texto. Tecnicamente, uma metáfora de empoderamento. No entanto, como ensina Roland Barthes, a publicidade pode ser intencional, mas o sentido nunca está garantido.

No Brasil de 2025, o signo “direito” sofreu chamamos de “colonização ideológica”. Deixou de ser apenas uma direção espacial ou uma superstição, e se tornou a identidade primária de metade do eleitorado. Ao negar o “pé direito”, a marca não negou uma superstição; para o público conservador, ela negou a legitimidade de um grupo político. Uma investigação semiótica prévia teria identificado as “isotopias de risco”, isto é, padrões recorrentes de tema e vocabulário que, no presente momento cultural, estavam especialmente aguçados.

Essa análise provavelmente apontaria que, em um ano pré-eleitoral, construções com negação (“não…”, “esqueça…”) combinadas ao lexema “direito” (ex.: direito encosta em direita na arena política) elevam muito a chance de leitura partidarizada, sobretudo quando conteúdos circulam em recortes de 3 a 5 segundos fora de contexto e eventualmente manipulados digitalmente. Em termos práticos, o alerta é: o risco não está na intenção do roteiro, mas no efeito mais provável na audiência; o que Charles Peirce chamaria de interpretante dinâmico: a interpretação que “pega” e dispara reação, compartilhamento e boicote.

A semiótica também analisa a figura do “enunciador”, aquele que fala a mensagem. O sentido de um texto muda radicalmente dependendo de quem o profere. Aqui entra a importância do contexto cultural trazido por Fernanda Torres. A atriz não é uma folha em branco; ela carrega o “ethos” (imagem de caráter) de sua recente atuação no filme Ainda Estou Aqui, que critica a ditadura militar, tema sensível para a base bolsonarista.

Grant McCracken, antropólogo canadense, lembra-nos que quando uma marca contrata uma celebridade, ela “importa” todos os significados culturais que essa pessoa carrega. Para entender o peso disso, basta aplicar o “Teste Regina Duarte”. Imagine o mesmo roteiro dito pela atriz Regina Duarte, ex-Secretária de Cultura de Bolsonaro e ícone conservador. Se Regina dissesse “esqueça o pé direito”, os críticos de Fernanda provavelmente interpretariam a assertiva como uma crítica ao “acaso” e uma valorização da meritocracia (“use os dois pés e trabalhe duro”). Como foi Fernanda Torres quem disse, a mesma frase foi lida como “ironia esquerdista” e ataque velado. O deslize da peça publicitária de Havaianas não foi apenas no texto, mas na combinação explosiva de “texto polissêmico + enunciador polarizado”. Isso para não me referir a um culto e bem formado comentarista de TV que teve a extraordinária cara de pau de “alertar” para a presença de sandálias vermelhas no fundo colorido do anúncio; como se lá não houvesse também amarelas, azuis e rosas!

Diante desse cenário, grandes corporações devem adotar a semiótica como parte de sua governança de risco. Diferente do social listening, que monitora o que já foi dito, a análise semiótica é preditiva. Um framework de risco semiótico pode envolver várias etapas, dentre as quais: (a) mapeamento de léxico tribal para identificar palavras que foram “sequestradas” por grupos polarizados (ex: “patriota”, “companheiro”, “liberdade”, “genocida”); (b) análise de ressonância do enunciador para verificar se o porta-voz escolhido atua como um “gatilho” para grupos de ódio ou boicote, cruzando sua imagem com os valores da base de consumidores da marca; e (c) simulação de leitura de enviesada para avaliar como o conteúdo será descontextualizado. Se um corte de 5 segundos do comercial for postado no WhatsApp, qual será o sentido?

No caso da Havaianas, o corte “Não comece com o pé direito” seria a arma do crime. O caso Havaianas decreta o fim da inocência publicitária. Marcas de massa, que dependem de vender para “todo mundo” (como diz o slogan da própria Havaianas), não podem mais se dar ao luxo de ignorar a hermenêutica da polarização. O prejuízo financeiro momentâneo da Alpargatas foi recuperado nos dias seguintes, provando a força da marca. Contudo, o custo reputacional e o desgaste de ter que gerenciar uma crise nacional no Natal poderiam ter sido evitados ou ao menos, mitigados.

Para 2026, a lição é clara: antes de aprovar uma campanha, além de perguntar “é criativo?”, “está alinhado ao briefing?”, “fala com meu target?”, pergunte: “quem pode usar essa mensagem contra a própria marca?”.