A urgência da alfabetização midiática

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A urgência da alfabetização midiática

Em um mundo onde todos somos editores do nosso próprio conteúdo, a alfabetização midiática é necessária para desenvolver o espírito crítico e ajudar nas construções fundamentais que tecem nossas relações sociais e políticas


19 de março de 2019 - 12h33

 

 

(crédito: reprodução)

Meu filho Theodoro de nove anos, há poucos dias, veio me contar empolgado que as informações que encontramos na Wikipedia não são confiáveis porque qualquer pessoa pode colocar ali o conteúdo que bem entender. E que precisamos sempre tomar cuidado com as informações que encontramos na internet. Quase tive um orgasmo ao ouvir aquilo de tanta felicidade e alento nesse mundo de pós-verdade em que estamos inseridos. Ele aprendeu isso na sua nova escola, cujo conteúdo desses primeiros meses do ano é mídia a partir da ideia central de como a informação é compartilhada pelas pessoas por meio de diferentes formas ao longo do tempo e seu impacto na construção de narrativas.

Desde então fico me perguntando: quantas crianças hoje no nosso país têm a oportunidade e o acesso a esse tipo de abordagem pedagógica tão urgente e necessária em um momento crucial no qual somos bombardeados a todo tempo por uma camada imensa de conteúdo — em sua maioria de péssima qualidade e falsa? Em um mundo onde todos somos editores do nosso próprio conteúdo, a alfabetização midiática é urgente para desenvolver o espírito crítico e ajudar nas construções fundamentais que tecem nossas relações sociais e políticas.

Nosso cérebro depende de informações para funcionar de maneira ideal. A qualidade desses estímulos com os quais somos a todo momento impactados determina, em grande parte, nossas percepções, crenças e atitudes. Pessoas em todo o mundo estão testemunhando um aumento dramático no acesso à informação e à novas formas de comunicação, que cresceram exponencialmente devido à tecnologia. Há um bom tempo já não basta apenas falar, ouvir, ler e escrever bem, já que vivemos num mundo pós-digital. É necessária a alfabetização midiática também. E muito pouco se discute sobre isso aqui no Brasil.

Ao passo que ao longo do tempo, a comunicação de massa nos treinou para sermos consumidores passivos, também contribuiu intencionalmente para que os espectadores absorvessem estereótipos que muitas vezes limitam nosso conhecimento sobre o mundo. No entanto, a geração do meu filho tem uma relação totalmente diferente com mídia e informação. Há algumas semanas ele está planejando lançar o seu próprio canal no YouTube para comentar as partidas da Premiere League, seguindo os passos de outros amigos e de seus grandes ídolos, boa parte celebridades nascidas nesta plataforma. Ou seja, não se pode mais pensar nos indivíduos apenas como consumidores, mas também como produtores de mídia, compartilhando e criando suas
próprias histórias. E esse processo começa desde muito cedo.

A média de exposição diária das crianças brasileiras à TV e à internet é por volta de cinco horas, acima do tempo em que passam na escola, se nos basearmos na rede pública, onde a grade de aulas é de quatro horas diárias. Não há nenhum tipo de conversa sobre o que aprendem e como absorvem todo esse conteúdo. Como pais e sociedade, é quase irresponsável fingir que isso não é importante

A Unesco lançou em 2015 seu programa de apoio e desenvolvimento de competências de Alfabetização Midiática e Informacional, por meio de pesquisas e cursos online gratuitos voltados a educadores. Uma das grandes referências globais nesse assunto é o Media Education Lab, vinculado à Escola de Comunicação e Mídia Harrington da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, que promove também pesquisas e programas de treinamentos para professores e interessados no assunto.

De viés bastante crítico, como é de se esperar, na França o assunto virou política pública há alguns anos. Desde 2015, o governo aumentou o financiamento para cursos sobre alfabetização midiática. Cerca de 30 mil professores e outros profissionais da educação recebem treinamento do poder público sobre o assunto a cada ano. Em alguns lugares, as autoridades locais exigem que os jovens adultos concluam um curso de alfabetização digital e midiática para poderem receber benefícios sociais, como uma bolsa mensal.

Em seu 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras, 2018), Yuval Noah Harari com sua rara habilidade de expor com clareza espantosa temas complexos faz a seguinte provocação: “O gênero humano está enfrentando revoluções sem precedentes, todas as nossas antigas narrativas estão ruindo e nenhuma narrativa nova surgiu até agora para substituí-las. Como podemos preparar nossos filhos para um mundo repleto de transformações sem precedentes e de incertezas tão radicais?”

Ao refletir sobre o que devemos ensinar para nossos filhos, Harari cita o conceito que muitos pedagogos hoje chamam de “os quatro Cs” — pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. “Num sentido mais amplo, as escolas deveriam minimizar as habilidades técnicas e enfatizar habilidades para propósitos genéricos na vida. O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar reinventar a você mesmo várias vezes”.

Em 2050, Theodoro estará entrando na casa do 40 e ler isso me faz realmente pensar que precisamos rever tudo — e rápido. Se a construção de novas narrativas hoje se dá sob bases movediças, o desespero e o desalento, embora sejam lugares fáceis e atraentes para onde podemos correr, no médio e longo prazos podem ser desastrosos.

Do “Golden Shower Manifesto” provocado por um presidente da República que governa pelo Twitter ao não follow de atrizes globais a Mariana Rui Barbosa nas suas redes sociais; passando pela saída (ainda que temporária) de Bruna Marquesini do Instagram durante o Carnaval por não poder lidar com as imagens e vídeos mostrando o crush de seu ex-namorado, o jogador Neymar com a cantora Anitta, vivemos hoje em um mundo onde as narrativas são voláteis, frágeis e sem mediação. Este mundo no qual as plataformas midiáticas com seu poder exponencial criam e destroem reputações em frações de segundos apenas com a exposição de uma foto mal contextualizada é o mesmo que ‘educa’ a sociedade e nossos filhos.

Crédito da foto no topo: Reprodução

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