O futuro do passado

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O futuro do passado

O que move a inovação é um aprofundamento nas necessidades e expectativas de um grupo de pessoas


22 de maio de 2019 - 18h30

(Crédito: Rostislav Sedlacek/iStock)

Outro dia, estava revendo alguns trabalhos que fiz no passado e dei de cara com os registros de uma das melhores experiências que já tive como designer: a participação, em 2000, de uma exposição no prédio da Trienalle, em Milão. Organizado pela Whirlpool Europa, o tema da mostra era uma projeção da visão de designers de diversas partes do mundo sobre um eletrodoméstico trivial — o micro-ondas — propondo como poderia ser num futuro de, digamos, 20 anos.

James Irvine, Konstantin Grcic, Christophe Pillet, Riccardo Giovanetti, Jacco Bregonje, Bjorn Goransson, Mark Baldwin e eu, representando o time de designers da Brastemp e Consul, ocupamos todo um andar do maravilhoso prédio durante a semana de design de Milão, onde ocorria a Eurocucina, feira internacional de móveis, eletrodomésticos e utensílios relacionados a cozinha, com instalações criativas e provocadoras.

Entre as ideias, produtos que propunham novas arquiteturas, soluções estéticas, desconstrução e fragmentação em diversos utensílios, mas também mobilidade, já aparecia como um diferencial importante. Do Brasil, levamos dois protótipos: um aparelho com acesso superior através de uma tampa basculante, que permitia visualizar o alimento de cima, mantendo o código de uso de uma panela convencional, e outro que propunha ser um aparelho pequeno, portátil, que pudesse ser levado a tiracolo para onde o usuário quisesse e precisasse.

Por mais que tenhamos caprichado, ninguém podia imaginar que passados os tais 20 anos, o micro-ondas em questão continuaria exatamente o mesmo: uma caixa de metal com uma janelinha na frente, que faz um barulho desagradável cada vez que a gente fecha a porta. Será que essa solução, surgida no fim dos anos 1960, foi tão boa que ficou por ali e pronto? Não, acho que não.

O fato é que todos naquela exposição trabalharam olhando o futuro como se a evolução tecnológica fosse a única saída para a inovação e aumento da proposta de valor. Imaginamos produtos do futuro baseados apenas na tecnologia, esquecendo que o que move a inovação é um aprofundamento nas necessidades e expectativas de um grupo de pessoas, que evoluem segundo uma dinâmica que modifica seu comportamento, seus gostos e valores.

No caso dos micro-ondas, a indústria optou por ‘comoditizar’ o produto, mantendo formas que ajudam a reduzir drasticamente seu preço, sem agregar nenhum valor que pudesse fazer o consumidor se interessar e estar disposto a pagar mais caro por uma solução que atendesse sua real necessidade. Neste caso e com certeza, a conveniência e a velocidade para preparar uma refeição. Hoje, a maioria dos produtos são fabricados em mega-fábricas na Ásia, que produzem para todas as marcas do mundo e despejam milhões desses aparelhos por dia no planeta. Todos muito parecidos.

Esse é o reflexo de um modelo de desenvolvimento que está envelhecido e dando sinais de esgotamento: a empresa pesquisa o consumidor, identifica algumas de suas necessidades, vai para o laboratório e desenvolve soluções tecnológicas dentro de um ambiente conhecido. Testa com o usuário, valida ou corrige e lança no mercado.

Trabalhando isoladamente, é enorme a chance de dar sempre nisso: um prato que gira, tecla pipoca, grill, isso ou aquilo. Não estamos mais no tempo de pensar em um produto individualmente. Precisamos pensar em soluções de maneira sistêmica, em produtos que sejam atrelados a serviços, parcerias, e tudo mais que puder gerar um benefício real, além das expectativas de um consumidor que tantas opções para investir seu dinheiro, que torna a concorrência muito mais diversificada.

Só para dar um exemplo, imagine se a indústria de aparelhos de micro-ondas combinasse com a indústria de alimentos um conceito de embalagens em tamanhos padrão, com um sistema de código de leitura que identificasse o tempo e a potência ideais para cada alimento? Uma solução assim poderia miniaturizar ao máximo o aparelho, que poderia ser vendido ou cedido gratuitamente pelo fabricante de alimentos, em troca de uma fidelização desse consumidor através de um plano de fornecimento semestral ou anual com as quantidades necessárias para sua família. Sim, estamos falando em envolver a marca que produz os aparelhos com a indústria de alimentos, os fabricantes de embalagens, um meio de pagamento digital e a logística de entrega em um serviço completamente novo para o usuário, oferecendo mais conveniência do que ele poderia esperar.

Parece complexo, mas acredito que um sistema como esse poderia reduzir os custos e ampliar a oferta, a partir de um modelo de negócio disruptivo, mas em sintonia com as possibilidades atuais. Por favor, entendam que não estou aqui propondo uma solução para os aparelhos de micro-ondas, mas sim jogando com a possibilidade real de empresas de diferentes setores sentarem numa mesma sala, discutirem as necessidades de um indivíduo que consome os produtos e serviços de todas elas e somar competências, recursos e informações para gerar uma solução realmente inovadora e inesperada para esse indivíduo.

Quando revi o futuro projetado no passado, notei que muitas empresas ainda estão pensando soluções como pensavam há 20 anos atrás. Outras variáveis de muito valor devem ser consideradas quando falamos de design e inovação. Modelos de desenvolvimento também envelhecem e precisam ser repensados constantemente. Acredito que a inovação colaborativa é uma das maneiras mais econômicas e criativas de se pensar o futuro a partir de agora.

*Crédito da imagem no topo: Vojtech Okenka/Pexels

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