Opinião

Visão de futuro depende do olhar pertinente do presente

O Vision Pro é um lembrete de que inovação não acontece apenas quando algo é possível, mas quando as pessoas estão prontas — cultural, social e biologicamente

Igor Puga

Líder de marketing e growth do PicPay 9 de fevereiro de 2026 - 14h00

A Apple sempre foi conhecida por não ser a primeira, mas por ser a mais precisa. O iPod, o iPhone e o iPad não inauguraram categorias — eles chegaram quando a tecnologia já existia, mas a cultura estava pronta para adotá la. O Vision Pro parece romper esse padrão. Não por falta de engenharia, mas por excesso de ambição.

Do ponto de vista técnico, o dispositivo é impressionante. A computação espacial funciona, a interface baseada no olhar é fluida e a integração entre mundo físico e digital é, pela primeira vez, realmente convincente. Ainda assim, a própria Apple reduziu produção, desacelerou marketing e tratou o produto, cedo demais, como um experimento controlado. Quando uma empresa desse porte recua tão rapidamente, dificilmente é por falha técnica. É porque o mundo não respondeu como ela imaginava.

Há algo de profundamente contraintuitivo na ideia de que o próximo grande salto da computação exija que cubramos o rosto. Não como uma limitação transitória, mas como condição estrutural da experiência. O Vision Pro não é um acessório; é um estado. Ele reorganiza o corpo no espaço, redefine o contato visual e transforma a presença física em detalhe. Isso entra em choque direto com um código humano básico: rostos importam. Sempre importaram.

Como observou Scott Galloway, nossos cérebros são biologicamente programados para prestar atenção prioritária às feições humanas como pistas de confiança, empatia e sobrevivência. Cobrir o rosto em interações sociais não é apenas estranho — é, em certo sentido, antinatural. Um dispositivo que exige esse gesto, mesmo quando tecnicamente impecável, cria uma fricção que não se resolve com mais pixels, mais sensores ou avatares mais realistas.

A Apple sabe disso, e suas tentativas de mitigação são engenhosas. Avatares hiperrealistas, reconstruções faciais precisas, olhos digitais projetados para fora do headset. Ainda assim, o incômodo persiste. Interagir com alguém usando o Vision Pro continua parecendo menos humano, não mais. A tecnologia suaviza o estranhamento, mas não o elimina. E talvez não possa.

Costuma se apontar o preço como o principal obstáculo. US$ 3.499 seriam caros demais para um dispositivo que ainda busca um lugar ao sol. Mas essa explicação é confortável demais. Consumidores já aceitaram pagar caro quando o valor era claro e cotidiano. O iPhone original custava caro. O primeiro Mac também. A diferença é que ambos tinham uma função evidente na vida das pessoas. O Vision Pro, por enquanto, não substitui nada essencial. Ele não elimina o smartphone, não resolve um problema urgente e não cria um hábito óbvio. Oferece uma experiência superior sem oferecer uma necessidade proporcional.

Isso fica evidente no ecossistema. Faltam aplicativos nativos realmente relevantes, falta escala de usuários e falta um comportamento dominante que se repita diariamente. O dilema clássico das plataformas se impõe: sem usuários, desenvolvedores não investem; sem aplicativos, usuários não permanecem. A promessa de que “basta abrir a imaginação” raramente funciona no mundo real.

Plataformas vencem por hábito, não por encantamento.

Há, porém, uma camada ainda mais desconfortável nessa discussão, que começa a aparecer fora do discurso publicitário da inovação. O Vision Pro foi concebido para uso prolongado, potencialmente contínuo. Diferentemente de outros dispositivos da Apple, não há ali um convite explícito à moderação.

Não existe limite de tempo de uso. A lógica implícita é clara: este é um ambiente no qual se pode permanecer.

Estudos clínicos e revisões científicas sobre o uso prolongado de headsets de realidade virtual e mista, reunidos por publicações como a Scientific American e analisados em reportagens recentes da Bloomberg, apontam efeitos recorrentes: fadiga ocular, dores de cabeça, tontura, náusea, dificuldades de foco e sobrecarga sensorial. Pesquisas também levantam preocupações sobre impactos cognitivos, como dificuldade de transição entre ambientes virtuais e físicos e alterações na atenção sustentada. Nada disso é exclusivo da Apple. Mas tudo isso ganha outra escala quando o dispositivo deixa de ser episódico e passa a ser permanente.

Quando um produto controla todo o campo visual, ele deixa de ser apenas uma interface. Ele se torna um mediador da realidade. Como observa a antropóloga Lisa Messeri, dispositivos desse tipo não apenas acompanham o usuário — eles sabem exatamente para onde ele olha, por quanto tempo e em que contexto. O sonho de consumo das empresas de tecnologia é, ao mesmo tempo, um teste de estresse para nossos limites cognitivos, sociais e culturais.

Curiosamente, é fora do consumo de massa que o Vision Pro parece mais honesto. Em contextos B2B — treinamento avançado, design industrial, medicina, colaboração remota de alta complexidade — o desconforto social diminui, o uso é delimitado e o custo se justifica. Nesses ambientes, um headset de alto desempenho pode ser transformador.

O Vision Pro não é um fracasso. Mas também não é o próximo iPhone. Ele é um sinal. Um lembrete de que inovação não acontece apenas quando algo é possível, mas quando as pessoas estão prontas — cultural, social e biologicamente.

A Apple construiu um dispositivo extraordinário para um mundo que ainda precisa decidir até que ponto está disposto a terceirizar a própria percepção. Talvez o futuro seja mesmo mediado por camadas digitais permanentes. A pergunta que permanece aberta não é quando isso vai acontecer, mas o que deixaremos de ver quando isso se tornar normal.