Opinião

Quando a confiança muda de lugar

Num mundo cansado de informação e desconfiado de tudo, chatbots se destacam como mediadores por uma pretensa neutralidade

Renato Mendes

co-fundador da 4Equity Media Ventures 4 de fevereiro de 2026 - 12h32

As pessoas estão usando chatbots para se informar mesmo sabendo que eles cometem erros. Essa é a descoberta mais interessante de uma pesquisa recente do Nieman Lab com usuários nos Estados Unidos e na Índia. Quase um quinto dos indianos entrevistados já usa essas ferramentas para entender notícias.

Nos Estados Unidos o número é menor, mas cresce.

O curioso não é quantas pessoas usam, mas como elas se comportam. Mesmo depois de pegar erros factuais ou informações desatualizadas, elas voltam. Mas por que voltam? Dizem que as respostas são “boas o suficiente” e “imparciais”. A confiança não quebra porque o que importa não é a perfeição da informação, e sim, a experiência. Fácil, prática, pronta. Sem esforço. Isso pesa mais do que a gente imagina. A experiência definitivamente venceu o conteúdo.

O que mudou não foi só a ferramenta, foi a forma de mediar informação. No Google tradicional, a dúvida vinha junto. Vários links te obrigavam a escolher, comparar, desconfiar. Com chatbots, a conclusão chega antes de você investigar qualquer coisa. Como a resposta não tem tom de opinião, você lê como se fosse neutra, não porque seja, mas porque não parece ter lado. Num mundo cansado de informação e desconfiado de tudo, isso já resolve.

Reputação virou quebra-cabeça

Por muito tempo, aparecer no Google era sinônimo de existir. Hoje não é mais assim. A percepção do que é confiável vem de vários lugares ao mesmo tempo: redes sociais, comentários, vídeos, reportagens, fóruns, conversas privadas. Tudo emite sinais, muitas vezes contraditórios. O chatbot entra como quem organiza essa bagunça. Ele junta os pedaços e devolve uma história que faz sentido. Uma resposta única, bem escrita, que parece sólida, mesmo quando foi montada com peças de qualidade muito diferente.

Tem um problema nisso. Chatbots não investigam, não checam fatos, não criam conhecimento. Eles só reorganizam o que já existe. Se a base é boa, a resposta funciona. Se a base é fraca, você acaba com uma reputação inventada, mas bem contada. A maioria das pessoas não sabe de onde vem o que está lendo (e nem se importa). A origem sumiu, o processo ficou invisível, a confiança vai toda para interface. Quando essa origem ficar mais clara (a OpenAI já sinalizou que vai nessa direção), essa confiança vai ser testada de verdade. Aí a gente descobre o quanto o sistema que alimenta tudo isso é frágil.

A situação complica mais ainda com publicidade entrando nos modelos de IA. A história da internet ensina: onde tem anúncio, tem priorização. Onde tem priorização, tem influência. Mesmo com proteções, só de existir essa convivência entre resposta e interesse comercial já muda como a gente percebe neutralidade. A pergunta deixa de ser só “isso está certo?”. Vira “isso foi influenciado?”.

Quem controla a base, controla a decisão

Aqui mora um paradoxo: quanto mais os chatbots viram intermediários das nossas escolhas, mais eles dependem de fontes confiáveis. Eles não criam fatos (ainda). Bebem da fonte de quem cria. Essa fonte, em boa parte, ainda é a imprensa profissional. Reportagens, investigações, apurações são o material mais estável para sustentar respostas que precisam parecer verdadeiras, mesmo que quem lê nunca chegue até a origem.

O erro dos últimos anos foi achar que só clique importava. Nesse modelo, confiança parecia vaga demais para justificar investimento. Agora o cenário mudou. Num mundo onde todo mundo consome sínteses, quem controla a qualidade da base controla a qualidade da decisão. Chatbots já fazem parte do processo de escolha de milhões de pessoas. A questão não é se isso vai continuar. É quem vai fornecer o material que alimenta essas conclusões.

No fim das contas, ter menos conversão pode significar ter mais influência. A imprensa está virando infraestrutura. Infraestrutura não aparece na superfície, mas sem ela nada funciona. A confiança voltou a ser invisível e essencial ao mesmo tempo.