Opinião

JONO: o prazer de não saber

Antes vista como fragilidade, a capacidade de rever ideias talvez seja, hoje, uma das competências mais subestimadas do nosso tempo

Andrea Dietrich

Consultora em transformação digital e cultura, sócia fundadora da Didietrich 4 de fevereiro de 2026 - 11h59

Durante muito tempo, a capacidade de mudar de perspectiva foi vista — inclusive por mim — como fragilidade. Em ambientes que premiam convicções firmes e posições bem demarcadas, rever ideias costuma ser confundido com falta de consistência. Hoje, enxergo diferente. Talvez essa seja uma das competências mais subestimadas do nosso tempo.

Ao longo do último ano, transitando por estudos diversos — da filosofia à neurociência, passando por espiritualidade e comportamento humano — pra mim ficou evidente: quanto mais se amplia o repertório, mais frágeis se tornam certas certezas.

Isso me gera até uma certa crise existencial. Mas também sinto algo libertador.
Nunca tivemos acesso a tantas interpretações possíveis sobre a realidade. Nunca circulou tanto conhecimento. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão dispostos a defender apenas uma única narrativa.

O mundo parece adoecer de certezas. As polarizações que atravessam negócios, política e relações sociais se assemelham menos a debates e mais a bunkers simbólicos, erguidos para proteger identidades. A polarização, no fim, é o encontro de monólogos que não se escutam. Quando abrimos mão da necessidade de estar certos o tempo todo, essas fronteiras começam a perder rigidez.

Despretensiosamente dei um nome para esse estado: o JONO — Joy of Knowing Nothing (já que cada ano uma sigla nova surge nos festivais de inovação, bora seguir a thread). Não como ignorância, mas como postura. O prazer de sustentar o não saber em um ambiente viciado em respostas rápidas.

Não é simples. A certeza organiza o mundo. Dá sensação de controle. O cérebro humano prefere previsibilidade e economiza energia quando encontra explicações fechadas. Questionar consome recursos cognitivos, gera desconforto, ativa zonas internas que resistem à ambiguidade. Em tempos de excesso de estímulos, convicções rígidas se tornam especialmente sedutoras.

O problema surge quando a certeza passa a ser identidade.

Ideias deixam de servir à compreensão da realidade e passam a funcionar como territórios a defender. Mudar de opinião soa como incoerência. Rever posições vira ameaça. O diálogo cede lugar à disputa.
Há uma frase amplamente atribuída a Einstein que ajuda a iluminar esse ponto: não é possível resolver problemas complexos a partir do mesmo nível de consciência que os criou. Ampliar consciência, nesse sentido, não é acumular respostas, mas ampliar perspectivas. É reconhecer que todo ponto de vista é parcial — inclusive o nosso.

Já se sabe há muito tempo que não vemos o mundo como ele é, mas como conseguimos percebê-lo. Nossas certezas carregam história, emoção e contexto. Não são neutras. Talvez por isso defendê-las com tanta intensidade diga mais sobre quem somos do que sobre a realidade que tentamos explicar.

JONO não propõe passividade nem relativismo vazio. Propõe abertura. A disposição de sustentar perguntas, de adiar conclusões, de reconhecer que a realidade é maior do que qualquer explicação individual.

Immanuel Kant já dizia que os sábios mudam de opinião, enquanto os ignorantes permanecem imutáveis. Em um mundo cada vez mais complexo, talvez a mente aberta não seja fraqueza, mas uma forma silenciosa de maturidade.

Ela não resolve tudo. Mas cria frestas. E, às vezes, uma fresta já muda a circulação do ar.

Desejo que a gere abra novas frestas no ano que se inicia.