Opinião

Pluribus e o paradoxo do eu

A humanidade não se define apenas pelo bem-estar médio, mas pela possibilidade de dissenso, erro e imperfeição

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 4 de fevereiro de 2026 - 11h54

Maratonei a série Pluribus durante as férias do início do ano, naquele intervalo raro em que o tempo parece desacelerar, ainda que o mundo, claramente, não tenha feito o mesmo. Escrevo este texto no final de janeiro, um mês que já deu o tom do que será 2026: intenso, acelerado, emocionalmente exaustivo e, em muitos aspectos, distópico. Talvez por isso a série tenha ressoado de forma tão direta. Pluribus não parece uma ficção sobre o futuro, soa como uma lente de aumento sobre o presente. Não à toa, tornou-se a produção mais assistida da história da Apple TV até dezembro de 2025.

Ao inverter a lógica clássica das narrativas de invasão alienígena, Pluribus faz algo mais perturbador do que imaginar o fim do mundo: imagina o fim do conflito. Não há cidades em ruínas nem batalhas épicas.

O colapso na trama é silencioso e, justamente por isso, mais inquietante. O mundo não acaba, ele aparentemente melhora. E é nesse excesso de harmonia que a série encontra seu comentário mais afiado sobre individualidade, agência pessoal e o futuro da humanidade.

Na série, um vírus extraterrestre une a humanidade em uma única consciência coletiva, eliminando a individualidade, o conflito e a dor, substituindo-os por uma felicidade forçada e equilibrada, transformando os humanos em um “nós”.

A ideia de uma consciência coletiva ou mente colmeia “gentil”, que não oprime explicitamente, não mente e supostamente só deseja o bem comum, desloca o debate ético para um lugar desconfortável. Se não há violência, se não há escassez, se todos parecem felizes, o que exatamente está errado?

Assistindo a Pluribus neste começo de ano e neste momento da nossa história como sociedade na qual algoritmos regulam conversas, emoções e reputações em tempo real, a pergunta deixa de ser abstrata. A série sugere que o problema não está no resultado, mas no processo. A felicidade deixa de ser uma conquista imperfeita e passa a ser um estado induzido, quase administrado e, exatamente por isso, forçado.

Esse ponto ganha ainda mais força quando pensamos no momento que atravessamos. O ano de 2026 começa sob o signo da aceleração: crises políticas contínuas, inteligência artificial (IA) cada vez mais presente na mediação da vida cotidiana, consensos frágeis e uma fadiga coletiva diante do conflito aberto. Pluribus parece dialogar diretamente com esse cansaço. A mente coletiva não manda, orienta.

Não pune, acolhe. Não silencia, harmoniza. E, ao fazer isso, coloca em xeque a noção de agência individual: até que ponto ainda escolhemos quem somos quando a fricção desaparece?

A escritora Carol Sturka, interpretada pela excelente atriz Rhea Seehorn, é o corpo estranho nesse novo mundo. Muitas pessoas com quem tenho conversado sobre a série disseram que se irritaram com sua personagem, mas a mim ela agrada, e muito, justamente pela sua condição demasiadamente humana. Solitária, amarga, pessimista, tudo aquilo que a mente coletiva aparentemente “corrigiu” no resto da humanidade. Carol não é uma heroína fácil de amar, e talvez por isso funcione tão bem. Pluribus não idealiza o indivíduo como figura moralmente superior, mas expõe o quanto a individualidade também dói, isola e cobra seu preço. Ainda assim, é nela que reside algo fundamental, a possibilidade de escolha.

O gesto mais sofisticado do criador da série, Vince Gilligan, de Breaking Bad e Better Call Saul, é estabelecer regras claras para esse novo mundo. A consciência coletiva não mente, não agride e age, inclusive, em benefício dos imunes. Isso nos tira do conforto das respostas fáceis. Se o sistema funciona, se o mundo está objetivamente melhor, qual é o argumento contra ele?

Assistindo à série em um janeiro já tão revelador, a resposta parece menos filosófica e mais visceral: a humanidade não se define apenas pelo bem-estar médio, mas pela possibilidade de dissenso, erro e imperfeição.

Nesse sentido, Pluribus fala menos sobre alienígenas e mais sobre nós. Sobre um tempo (que pode ser futuro ou presente) em que a tecnologia não nos domina pela força, mas pelo conforto. Um futuro em que abrir mão de partes do “eu” parece um preço aceitável para pertencer, para não sofrer, para não ficar de fora. A série não demoniza a vida em comunidade nem glorifica o isolamento radical. Seu ponto mais potente está no meio do caminho: precisamos uns dos outros, mas não à custa da dissolução completa da subjetividade.

Diferentemente de outras séries igualmente interessantes sobre futuros (e presentes) distópicos, como Years & Years e Black Mirror, a produção da Apple TV traz uma sátira direta às bolhas ideológicas, aos algoritmos de engajamento emocional e à cultura do cancelamento coletivo, temas que ressoam fortemente em um 2026 marcado por polarização extrema, IA cada vez mais persuasiva e uma fadiga social diante do conflito aberto. A pergunta implícita é inquietante: quando a gentileza se torna mandatória, ela ainda é virtude?

O ritmo contemplativo, por vezes frustrante, reforça essa ideia. Pluribus não tem pressa em “salvar o mundo” porque o que está em jogo não é um evento pontual e sim um estado permanente. Não há botão de desligar para a felicidade administrada. Há apenas escolhas contínuas, aceitar, resistir, negociar.

Talvez seja por isso que terminar a temporada deixe uma sensação estranha, quase incômoda. Pluribus não pergunta se queremos ser felizes. Ela pergunta quem nos tornamos quando a felicidade deixa de ser uma escolha. E, olhando para este janeiro acelerado que dá o tom desse 2026 distópico, a pergunta soa menos como ficção e mais como um alerta.