Opinião

Comunicar no labirinto em que vivemos

Marcas, estratégia e reputação em tempos de instabilidade e excesso

Marcos Amazonas

CEO da Connect Entretenimento e Educação 29 de janeiro de 2026 - 9h43

Vivemos em um ambiente marcado por incerteza, sobreposição de caminhos, sinais contraditórios e múltiplas possibilidades de ação. Não há um caminho claro, nem uma saída — apenas alterações constantes de perspectivas e rumos, fluxos diversos e simultâneos, novas tecnologias, novas realidades.

Essa é a nossa realidade. Vivemos em um labirinto.

Essa não é uma metáfora de crise, mas uma descrição do tempo em que vivemos. Um tempo maximalista, no qual a quantidade de possibilidades não apenas é grande — ela se amplia todos os dias.

A informação circula em velocidade crescente, os formatos se multiplicam, os públicos se transformam. O desafio não é encontrar o caminho certo, mas aprender a habitar a complexidade com consciência estratégica.

Ao longo dessas décadas, vi a economia brasileira passar por transformações intensas — e muitas vezes contraditórias. Vivi os anos da hiperinflação, em que preços mudavam entre o café da manhã e o fim do expediente; vi congelamentos de preços e salários, a multiplicação de moedas efêmeras, planos econômicos de emergência e a angústia de uma população sem poder de previsibilidade. Acompanhei o impacto do Plano Real e a reconstrução da confiança em uma moeda estável; testemunhei ciclos de privatização acelerada nos anos 1990, seguidos, mais adiante, por novos impulsos de estatização, subsídios e presença ampliada do Estado.

Vi o Brasil oscilar entre políticas liberais e nacional-desenvolvimentistas, entre o boom das commodities e a desindustrialização, entre euforias temporárias e crises profundas, entre projetos de abertura econômica e movimentos de retração. Nada foi linear — tudo exigiu adaptação, escuta, inteligência e, sobretudo, resiliência das empresas, dos trabalhadores e da própria sociedade civil.

Mas, agora, algo parece diferente.

Não é apenas a economia que mudou — é o próprio lugar da confiança. Há uma espécie de ruído de fundo, uma hesitação coletiva que não se deixa capturar pelas métricas tradicionais. Os dados indicam estabilidade: inflação sob controle, reservas robustas, avanços tecnológicos em curso. Mas a sensação, difusa e persistente, é a de que caminhamos sobre um terreno que não sustenta grandes certezas. Como se estivéssemos em movimento — mas sem um destino claro.

Diferentemente de outras épocas, em que o crescimento vinha atrelado a um projeto mais visível de país, o que se nota hoje é uma dificuldade de narrar o amanhã. Há avanços evidentes em setores como agro, energia, tecnologia e economia criativa, mas falta uma coordenação estratégica entre as forças produtivas, o Estado e a sociedade. O Brasil cresce por ilhas — e não como arquipélago coeso.

Nesse cenário, marcas e agências não podem operar como se estivessem fora desse processo. Ao contrário: a comunicação institucional e comercial deixou de ser apenas uma engrenagem de mercado.

Ela se tornou parte central do pacto simbólico entre empresas e sociedade. Já não basta anunciar um produto — é preciso declarar intenções, sustentar valores, agir com coerência.

A crise de confiança não atinge apenas a política ou as instituições: também paira sobre as marcas. O público exige clareza, responsabilidade e ação.

É por isso que, nos dias de hoje, a comunicação precisa ser estratégica e social ao mesmo tempo. Precisa gerar resultado — claro. Mas também precisa gerar sentido. As agências têm um papel essencial: ajudar empresas a se moverem com inteligência e propósito dentro de um cenário instável, fragmentado e em permanente mutação.

Não estamos mais num tempo de campanhas episódicas. Estamos em um campo contínuo de relações com públicos diversos, conectados, exigentes — e em constante reinvenção. Isso exige mais do que formatos novos. Exige um pensamento vivo, atento ao seu tempo. Exige uma atuação maximalista: a capacidade de operar com múltiplas variáveis, múltiplos públicos e múltiplos sentidos simultaneamente — sem perder a coerência, nem a clareza de propósito.

A estratégia comercial precisa estar ancorada em compromisso institucional. Comunicar, hoje, é assumir um papel no mundo.

A complexidade que nos cerca exige ação, escuta e planejamento dinâmico. Não há mais um único caminho. Não cabe encontrar esse caminho, cabe achar. O desafio é aprender a viver dentro do labirinto que habitamos — com estratégia, com presença e com consciência do tempo em que estamos inseridos.