O futuro é um golpe de marketing
Só que a vida real continua acontecendo aqui, enquanto tentamos adiar o incômodo de encará-la
Ninguém aguenta mais o futuro. E, ainda assim, é nele que vivemos a maior parte do tempo. Uma das consequências de viver fora do presente é a perda da nossa capacidade cognitiva.
O futuro deu lucro demais para ser abandonado. Virou o melhor produto da prateleira. Tudo o que se vende hoje traz o mesmo slogan disfarçado: “prepare-se para o que vem aí”. A gente compara curso de inglês, estúdio de 35 m2, seguro, terapia, tudo embalado em promessa de amanhã.
O presente ficou parecendo uma sala de TV dos anos 1990 em uma casa antiga. Existe, já foi cool, mas, atualmente, ninguém frequenta. Vivemos como quem está sempre a caminho: de um corpo melhor, de uma promoção no trabalho, de uma versão mais estável de nós mesmos — emocional ou financeiramente, não necessariamente nessa ordem. Só que a vida real continua acontecendo aqui, enquanto tentamos adiar o incômodo de encará-la. Ninguém nos ensina a lidar com o agora.
A tecnologia fez o favor de transformar o futuro em hábito. O “agora” é só o tempo que a notificação leva para aparecer. E se você não estiver atualizado, otimizado e produtivo, parece que já ficou para trás. Estamos todos exaustos de sustentar a ilusão de que estamos progredindo, quando, na verdade, estamos apenas recarregando o mesmo aplicativo de ansiedade todos os dias.
E é claro que existem consequências emocionais, como o aumento da ansiedade, depressão e da angústia, há dados que confirmam esse quadro. Em 2023, 26,8% dos brasileiros relataram diagnóstico médico de ansiedade e 12,7% de depressão (*Covitel). Em outro levantamento, 68% admitiram sentir ansiedade, mas mais da metade nunca procurou ajuda profissional. Estudos clínicos sugerem que, em certas populações, os transtornos ansiosos chegam a 27,4%. Tudo isso aponta que não estamos falando de exagero de sensibilidade. É uma crise real.
E há uma outra consequência séria: a perda da nossa soberania cognitiva — um termo que parece teórico, mas fala de algo simples: o direito de pensar com a própria cabeça. Hoje esse direito está em risco não porque alguém o proibiu, mas porque o entregamos, aos poucos, em troca de conveniência. É gostoso pensar no futuro, idealizar metas, fazer planos com a Mega-Sena. Só que, enquanto fazemos isso, rolando o feed, projetando contextos e situações, nossa capacidade cognitiva vai para o ralo.
Os algoritmos, e centenas de ferramentas de inteligência artificial que pensam por nós, estão corroendo nossa capacidade de pensar sobre nós mesmos. Estudos recentes do MIT mostram que, em tarefas de redação, participantes que usaram modelos de linguagem como o ChatGPT tiveram menor ativação cerebral e menos engajamento neural do que quem escreveu sem assistência (**Media Lab, MIT). Isso sugere que, ao delegarmos o ato de pensar a plataformas, criamos um “déficit cognitivo” — uma deterioração silenciosa da nossa própria capacidade de engajamento mental.
Quanto mais distraídos, melhor. Você não precisava daquela máquina de etiquetas, mas algo fez você acreditar que vai precisar. Você não queria ouvir aquela música, mas agora, conhece ela de cor. Você não tinha uma visão política, agora jura possuir uma verdade absoluta. Cada recomendação que acatamos sem refletir dilui nosso senso crítico.
Essa fórmula — hiperconexão com conveniência, somada à promessa de futuro — se tornou um destruidor de cérebros. É o maior golpe de marketing da história: ninguém nunca chegou lá, mas todo mundo continua comparando passagem. O resultado desse golpe é que estamos perdendo o comando sobre nosso próprio tempo mental. Passamos o dia alimentando o que ainda não existe, presos em ciclos de antecipação e comparação. Renunciamos à nossa liberdade de pensar e decidir por nós mesmos.
Talvez a única forma de resistência seja recusar prever tudo, parar de protagonizar prólogos de si mesmo e aceitar que, por mais arcaico que pareça, o presente ainda é o único tempo real.
Recuperar a soberania cognitiva não significa rejeitar pensar no futuro, mas sim conseguir estar inteiro no agora. Usar o offline com presença. Ler quando estiver lendo, comer quando estiver comendo, ouvir quando estiver ouvindo. Entender, digerir, refletir, pensar. Procurar companhia onde pensar não seja um problema.
Ouvir “Num dia”, do mestre Arnaldo Antunes.
“Ao se deitar para dormir, dormir.”
São atos de resistência quase anacrônicos: desligar as previsões, adiar o planejamento e observar o que está vivo hoje. No fim das contas, o futuro não precisa mandar tanto na gente.