Superpoderes das big techs
Teles e fabricantes de infraestrutura de redes e de celulares se ressentem da dependência que a vida e os negócios têm das gigantes que controlam serviços massivos como cloud, e-commerce e streaming
Um dos maiores transtornos para a vida de muitas pessoas e os negócios de diversas empresas hoje em dia ocorre quando há um bug no WhatsApp. A desconexão é tão problemática para boa parte do mundo como a falta de água ou de energia elétrica. Vivemos uma dualidade: de um lado, aproveitamos a autonomia que a tecnologia nos dá; de outro, criamos relações pessoais e empresariais dependentes dela.
Principal arena de encontro entre as maiores companhias globais de tecnologia e telecomunicações, o Mobile World Congress (MWC) realizou sua edição 2026 na semana passada, em Barcelona, expondo as tensões que opõem interesses de gigantes responsáveis pela conectividade global. As teles e as fabricantes de infraestrutura de redes e de celulares aliaram seus discursos aos das autoridades governamentais europeias, externando a enorme preocupação com a dependência das companhias que controlam os data centers que processam a inteligência artificial (IA) no mundo, como as norte-americanas AWS (Amazon), Google, Microsoft e Meta e as chinesas Alibaba e Tecent. Quase como um manifesto, teles como a alemã Deutsche Telekom e a espanhola Telefónica, discursaram a favor de que a
IA seja uma tecnologia soberana, livre do domínio das big techs, das quais o mundo depende para serviços massivos como cloud, e-commerce e streaming. Trata-se de jogo de interesses também norteado pela dualidade, já que um grupo não vive sem o outro.
Publicadas nas páginas 26 a 28, as reportagens dos editores Sérgio Damasceno e Fernando Murad e da repórter Amanda Schnaider resumem os debates e temores expressos no MWC, que vão desde os riscos de ataque a infraestruturas sensíveis até medidas governamentais que afetam as relações entre as companhias protagonistas no cenário mundial, como a imprevisível política tarifária norte-americana. O conteúdo multiplataforma sobre o evento está disponível no site especial meioemensagem.com.br/mwc, incrementado com a visão de diversos profissionais brasileiros participantes do blog Conexão Barcelona, e na ampla produção audiovisual para as redes sociais, coordenada pela jornalista Victória Navarro.
A soberania tecnológica ocupou o centro dos debates no MWC não apenas pelo estresse entre players que veem seus negócios ameaçados, como também pela coincidência com o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, conflito que tem na IA uma de suas armas mais poderosas, especialmente no planejamento e identificação de alvos estratégicos. Na era da tecno-geopolítica, a supremacia tecnológica redefine o poder bélico e territorial. O MWC foi o primeiro grande evento global afetado pela guerra: estimativas extraoficiais dão conta de que cerca de nove mil pessoas não conseguiram embarcar para a Espanha do Oriente Médio e parte da Ásia. Com isso, a organizadora GSMA contabilizou a presença de quase 105 mil visitantes, número abaixo das 110 mil pessoas previstas inicialmente.
O domínio das big techs avança também sobre a divisão dos investimentos em comunicação e maketing. Ao contrário do que acontecia no passado, atualmente as maiores empresas de mídia do mundo não têm a produção de conteúdo no core business, o que gera relação ambígua entre as plataformas de tecnologia e os publishers. No mercado brasileiro, conforme demonstram números do Cenp-Meios divulgados na semana passada, a mídia digital segue em crescimento com vistas a uma inversão de posições com a televisão no posto de principal destino das verbas de compra de mídia que passam pelas agências de publicidade participantes do painel — se considerados os investimentos feitos diretamente pelos anunciantes, a internet já é a principal mídia há tempos.
O histórico do Cenp-Meios mostra que, nos últimos cinco anos, enquanto o share da internet subiu de 33,5% para 40,6%, o da TV, considerando aberta e por assinatura, fez caminho inverso, de 51,8% para 41,3%. Tal cenário reflete os superpoderes das big techs também no mercado brasileiro. Como mostram os dados completos publicados na página 20, outro destaque importante é o out-of-home, que, no mesmo período, saltou de 8,6% para 12,1%, atingindo em 2026 sua maior participação na divisão do bolo.