Por que produtoras brasileiras abrem operações no exterior
Estratégia adotada por produtoras envolve acesso a decisões globais, novas verbas e maturidade criativa
Mais do que um desejo de expansão geográfica, a internacionalização das produtoras de áudio e vídeo responde a uma lógica de negócios clara: estar onde estão as decisões, os budgets e os fluxos globais de produção. Com estruturas enxutas, equipes híbridas e, muitas vezes, concentradas no Brasil, operações fora do País abrem espaço para novas oportunidades de relacionamento, eficiência financeira e criatividade.

Gustavo Gripe, de Landscape, diz que reorganização do marketing das marcas impulsiona expansão das produtoras fora do País (Crédito: Divulgação)
O Landscape, de acordo com o seu CEO, Gustavo Gripe, é uma estrutura que reúne 12 produtoras audiovisuais, que, juntas totalizam 45 diretores. A empresa compartilha a mesma sede física em São Paulo, com cada produtora tendo o próprio time de produção executiva. A companhia está presente, há três anos, nos Estados Unidos e Portugal, mas, no ano passado, ampliou a presença em Buenos Aires, Cidade do México, Lisboa, Paris e Barcelona por meio de parceiros.
Para Gripe, a crescente expansão das produtoras foi impulsionada pela reorganização do marketing de muitas companhias globais após a pandemia. Se, antes, havia operações locais atendendo as marcas em cada mercado, agora, existem operações multimercados cuidando de uma mesma marca. Nesse sentido, tanto clientes brasileiros passaram a cuidar globalmente de marcas, quanto clientes do exterior começaram a dialogar mais com o Brasil.
Essa dinâmica, conforme o executivo, abre portas para conversas mais amplas. “Quando percebemos esse movimento, nossa estratégia foi globalizar o ecossistema para que possamos atender nossos clientes em multimercados, traduzindo as peculiaridades de produzir em cada país para contratos guarda-chuva, que reduzem o atrito quando se fala em escala”, diz.
Acesso a maiores verbas
A Vox Haus, neste mês, abriu um escritório em Miami para apresentações e reuniões com clientes e agências. Os times de produção musical e de desenho de som, no entanto, continuam concentrados no Brasil. O fuso de horário dos Estados Unidos permite que o trabalho ocorra à distância, explica Matheus Gugelmim, owner da produtora.

Matheus Gugelmim, owner da Vox Haus, abriu escritório da produtora de som em Miami neste mês (Crédito: Divulgação)
O que motivou a decisão de desembarcar nos Estados Unidos, juntamente com a maturidade do negócio, é o fato de o mercado americano concentrar as maiores verbas da indústria publicitária global. De lá, o plano é alcançar outros territórios, como México e Colômbia.
Gugelmim revela que, no primeiro momento, a estratégia é reinvestir os resultados da operação internacional no fortalecimento da estrutura, expansão da atuação e conquista de novos clientes. “Essa abordagem permite sustentar um crescimento consistente e apoiar a consolidação da produtora no mercado americano”, comenta.
Facilidade para clientes
Lucas Duque, sócio e diretor criativo da Sonido, conta que a internacionalização focou em tornar a produtora de som como facilitador para clientes de fora que já eram atendidos no Brasil. Atualmente, existem sedes físicas no Rio de Janeiro, Argentina e na Polônia, sendo essa a mais recente, aberta no final do ano passado. Porém, existem profissionais sediados nos EUA, Portugal e Dubai.

Para Lucas Duque, sócio e diretor criativo da Sonido, equipes enxutas e entrega com excelência ajuda a resolver a matemática dos custos fora do Brasil (Crédito: Divulgação)
A matemática ao redor dos custos e dos lucros, conforme Duque, se resolve de forma simples: equipe enxuta e entrega com excelência. Cada estrutura precisa se pagar, gerando resultado proporcional ao tamanho. “A meta é ter projetos que venham de todos os lugares. Isso, com a música/áudio, tem uma barreira menor”.
“A possibilidade de trabalhar em mercados diferentes me fascina. A trajetória fora do Brasil nos trouxe maior relevância dentro de alguns clientes, o que também acho positivo para todas as partes”, analisa Duque.
Mistura de nacionalidade
Em sociedade com o diretor de cena português André Chitas, que é quem lidera a operação, a Barry Company abriu a Bgroove em Portugal em 2025. No momento, conforme o sócio, o estágio é de prospecção, com pitchings relevantes em andamento. Em termos de estrutura, há uma produtora executiva local e alguns diretores brasileiros.
“A ideia surgiu pelo fato de eu ser português e do desejo de voltar a trabalhar no mercado onde iniciei minha carreira, não apenas no mercado publicitário, mas com o objetivo de criar uma ponte de coproduções na área de ficção, já que a Barry tem sólida carreira nesse segmento”, conta.

André Chitas, diretor de cena e sócio da Bgroove, diz que custo de produção em Portugal se assemelha ao do Brasil (Crédito: Divulgação)
Além disso, Chitas concorda com Gripe ao dizer que o momento é propício, pois a maioria das marcas, atualmente, atuam globalmente. “A ideia é criar essa cultura dentro de uma produtora local, por meio de um selo próprio e não criando parcerias com selos internacionais”, acrescenta.
Na comparação, o diretor de cena explica que, mesmo com o euro bem mais valorizado que o real, os custos de produção em Portugal acabam sendo equivalentes aos dos Brasil, considerado um país caro para produzir publicidade e cinema. Por isso, as margens de lucro se mantêm equivalentes. O jogo de cintura, então, recai sobre o tamanho da operação, com estrutura enxuta, o que gera, consequentemente, leveza no custo fixo.
Oportunidades para as produtoras
No caso da Bgroove, atuar na Europa amplia, de acordo com Chitas, amplia as possibilidades para produtoras brasileiras, seja por necessidades especificas de filmar fora – com uma celebridade, por exemplo –, seja para abrir o leque para propor cenas pontuais, que podem aumentar o craft da narrativa.
“Se o cliente puder pagar fora, também conseguimos otimizar custos. É a oportunidade de ampliar o olhar e investigar novas formas para contar histórias”, complementa o sócio e diretor de cena.
O CEO da Landscape inclui que, dentro das vantagens, os processos se tornam mais organizados, com trocas importantes com produtores de agências experientes, o que ajuda a construir network global e novas oportunidades. Por outro lado, o desafio central é garantir o mesmo nível de entrega em mercados cujo nível de experiência ainda está sendo construído.
“Por isso, o passo 1 de Landscape está sendo achar parceiros locais bastante estabelecidos, enquanto entramos com os talentos e a gestão de relacionamento com os clientes que já confiam no ecossistema e suas produtoras”, pontua.
Já na visão de Gugelmim, uma das oportunidades para a produtora brasileira é a força de setores como o de pharma, com mais campo de trabalho por conta das legislações locais, além de mais espaço para o entretenimento. “Enxergo uma tendência da publicidade e do audiovisual se movimentar cada vez mais para o entretenimento. Apesar de ver isso acontecendo no Brasil, nos Estados Unidos, já é algo bem estabelecido”.