Como o caso Master afeta a confiança no setor financeiro
Com rombo bilionário, caso Master gera depuração no setor e deve beneficiar os grandes bancos do País
Na última quarta-feira, 21, o Banco Central decretou a liquidação do Will Bank. No mundo financeiro, a liquidação é o processo que encerra as operações de um banco que apresenta graves problemas econômicos ou irregularidades. O processo segue na esteira do caso Master.

Crise começou ainda no ano passado com operação Compliance Zero (Crédito: jackpress-shutterstock )
Em novembro, a operação Compliance Zero, da Polícia Federal, investigou fraudes envolvendo Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a investigação Vorcaro teria tentado vender R$ 12,7 bilhões em carteiras de crédito falsas. Na sequência, o Banco Central anunciou a liquidação extrajudicial de quatro empresas do conglomerado: Banco Master S/A, Banco Master de Investimento S/A, Banco Letsbank S/A e Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.
Já em janeiro deste ano, foram liquidadas a antiga Reag Trus e o Will Bank. A crise afetou cerca de 1,6 milhão de clientes, que serão ressarcidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O FGC é uma entidade que reúne recursos das instituições financeiras para proteger correntistas e investidores em caso de falência ou intervenção pelo Banco Central.
O FGC garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Com o caso Master, o FGC estima desembolsar cerca de R$ 41 bilhões, o maior resgate da história do fundo. Mas, além do ônus financeiro, a crise também afeta o setor do ponto de vista reputacional ao abalar a confiança de consumidores e investidores.
“Para qualquer empresa, a reputação é algo fundamental. Quando falamos de sistema financeiro e bancos, especificamente, isso é ainda mais importante, porque todo o sistema financeiro é muito baseado na confiança”, aponta Ricardo Hammoud, economista e professor da FGV.
Mas, apesar das particularidades do universo financeiro, a crise do Master não afeta todos os players do setor de maneira igual. Para os analistas, instituições com o mesmo porte e características do Master serão os mais afetados.
Como explica Jorge Ferreira dos Santos, professor de administração da ESPM: “Teve um transbordamento desse problema do brand equity para outros bancos de médio porte que têm as características do Banco Master. São bancos que têm uma tesouraria que opera com muita agressividade no mercado, oferecem remunerações para os investimentos mais altas, bancos que têm um capital menor. Precisamos entender que muito do que é a solidez de um banco é a quantidade de capital que ele tem. Isso é o que faz a diferença”.
Por terem menos capital, os bancos médios precisariam investir em estratégias mais agressivas. No entanto, com o precedente do caso Master, Santos acredita que essa abordagem passe a ser vista com maior desconfiança pelos investidores.
Esse cenário deve beneficiar os grandes bancos e criar o que Hammoud descreve como uma depuração entre as fintechs. “Os bons bancos digitais, mais sólidos e responsáveis, vão acabar mantendo sua base de clientes, talvez, até aumentando porque têm tarifas, oportunidades e retornos maiores. Já outras fintechs e bancos que não têm uma governança muito boa terão que pagar retornos cada vez maiores para captar o dinheiro, um custo cada vez maior. Isso vai fazer com que alguns tenham até que fechar”, analisa.
Nesse sentido, para os analistas, o caso deve ficar marcado como uma crise do banco e não do setor, como um todo. “A crise do Master não criou uma crise sistêmica no sistema financeiro brasileiro. Ela ficou localizada. Afetou a reputação dos bancos médios, mas o sistema financeiro brasileiro é muito mais robusto do que essa crise”, conclui Santos.

