O impacto da bolha da IA para os negócios de comunicação
Especialistas analisam supervalorização e como a correção do mercado afeta agências e marcas
Em 2025, mais uma vez, a inteligência artificial esteve entre os temas mais discutidos no universo da tecnologia e dos negócios. Mas, nos últimos meses, as manchetes adotaram um tom mais cauteloso e um assunto ganhou força: a bolha da IA.

Bolha da IA preocupa mercado financeiro (Crédito: Iurii Motov/Shutterstock)
No mundo financeiro, uma bolha é quando o preço de um ativo sobe além do seu valor real, impulsionado pela especulação e sem fundamento econômico, criando um ciclo insustentável. Foi o caso da Bolha das Tulipas, no século XVII, ou a Crise Imobiliária de 2008.
Nesse sentido, a concentração de capital e o ganho de valor de mercado das empresas relacionadas à corrida da inteligência artificial, como OpenAI e Nvidia, baseados no que devem ser os seus ganhos futuros e ainda distantes dos lucros atuais passaram a preocupar o mercado.
Para Cesar Almiñana, professor de negócios e inteligência artificial do Inteli, o cenário seria, sim, de bolha, uma vez que há um desequilíbrio. “O mercado vive esse estado, considerando que a quantidade de capital que foi injetada na tecnologia, nas empresas que desenvolvem ou lideram esses movimentos é significativamente maior que o valor prático ou retorno que está sendo realizado no curto prazo”, descreve.
Esse fenômeno se materializaria em três aspectos. Primeiro, na especulação. Segundo o professor, as empresas envolvidas nesse processo foram supervalorizadas a partir de apostas nos ganhos futuros. Além disso, a bolha teria uma questão de infraestrutura. Já que desbloquear o potencial da IA exige um investimento por parte das big techs em capex, como a construção de data centers e aquisição de chips, que estaria na casa dos trilhões de dólares e precisará se amortizado.
Por fim, existiria uma camada de hype. “O mercado coloca a resposta de todos os seus problemas históricos na adoção da IA. Sabemos que não é assim”, analisa Almiñana. É a partir destes questionamentos financeiros que o tom dos discursos sobre a IA começam a ser revistos.
“Hoje, não tem nenhum analista financeiro – mesmo que ele seja super otimista, apaixonado por IA e pela Nvidia – que consiga justificar como essa empresa vale US$ 5 trilhões. É aí que começa o sentimento de cautela”, aponta Kenneth Corrêa, estrategista de tecnologias emergentes e professor de MBAs da FGV.
O “estouro” da bolha da IA
Apesar do alerta financeiro, os analistas reconhecem que movimentos de superavaliação de ativos são comuns e que a existência de uma bolha da IA não compromete ou nega o ciclo tecnológico.
A bolha da IA tem sido, frequentemente, comparada com a Bolha da Internet, do início dos anos 2000, quando uma série de empresas digitais faliram depois de não conseguir comprovar a sua sustentabilidade sem os investimentos massivos do mercado de capital.
Porém, existem diferenças significativas entre os dois cenários. A principal seria a dimensão das empresas envolvidas. “Em 2001, quando se pensava em internet, estávamos falando de startups de verdade. Eram pessoas dentro de uma garagem que tinham tido uma boa ideia e um sonho. Em 2025, estamos falando da bolha da IA com empresas como a OpenAI, maior empresa de capital fechado do planeta”, aponta Corrêa.
Com isso em vista, para Almiñana, um estouro da bolha da IA representaria um risco sistêmico menor. No lugar de uma falência em massa, o foco estaria na reprecificação e revisão do modelo.
Ele aposta em um movimento de consolidação, em que as big techs devem verticalizar algumas cadeias e absorver funções. Para amortizar os custos de infraestrutura, os modelos também podem ficar mais caros.
Impacto para as empresas
É nesse ponto que estaria o impacto central para agências e anunciantes. Pressionadas financeiramente, as big techs podem rever seu modelo e aumentar preços. Porém, o professor dos MBAs da FGV aposta em uma força contrária: o aumento da concorrência. Ele cita a chegada de uma segunda geração de modelos, como os chineses DeepSeek e Qween e a francesa Mistral.
“A pressão atual é mais na direção de baixar os preços do que de aumentar. Se a bolha estourar, eu não acredito que aumentar os preços salve o modelo de negócios, porque eles ainda vão ter os competidores” aposta Corrêa. Ainda assim, a onda de revisão e atenção à sustentabilidade também é válida para o mercado de comunicação e marketing.
Almiñana sugere que os líderes se atentem a indicadores como o time to value dos projetos, a eficiência operacional gerada pelas aplicações, possíveis reduções de custos estruturais e retorno financeiro para guiar seus investimentos em IA para 2026.
“Tem impacto na receita? Então, acelera. Se claramente tem ganhos que são mensuráveis, aumento na receita anual pelo uso da IA generativa. E, se a resposta é não, para. Se eu não consigo quantificar, freia e repensa se, de fato, esse uso está sendo bem-feito, se ele é consciente ou só segue a moda”, explica o professor do Inteli.

