A crise climática também é uma crise de sentido
A transformação emperra no imaginário que sustenta o atual sistema de vida e consumo
Depois de quinze anos pesquisando, entrevistando e produzindo conteúdo multiplataforma sobre sustentabilidade, trabalhando com equipes de comunicação e marcas em processo de transição para modelos mais conscientes, constato que o maior entrave à transição que o mundo precisa fazer não é técnico. É cultural.
Avançamos em energia limpa, economia circular e inovação verde. Mas, ao observar como as pessoas vivem, consomem e desejam, fica claro onde a transformação emperra: o imaginário que sustenta o sistema permanece praticamente intacto.
Hoje, a maioria das pessoas vive sob a lógica da vida-mercado, um ambiente simbólico em que existir significa produzir, performar e consumir. Identidade vira marca pessoal. Tempo vira ativo. Atenção vira moeda. O valor de alguém passa a ser medido pelo que entrega, pelo que compra e pelo que exibe.
Funciona para a economia. Não funciona para as pessoas e muito menos para o planeta.
O mesmo sistema que gera crescimento produz, como subproduto, ansiedade crônica, exaustão, sensação de inadequação e perda de sentido. Não é um efeito colateral. É parte do modelo: gente satisfeita não sustenta consumo infinito.
Esse arranjo colidiu com dois limites inegociáveis. De um lado, os recursos naturais de um planeta finito.
De outro, a saúde mental coletiva, pressionada por uma disputa permanente por atenção, status e pertencimento em escala industrial. O resultado é uma crise que não é apenas ambiental ou econômica.
É civilizatória.
É nesse contexto que começa a ganhar espaço a ideia de uma transição da vida-mercado para uma vida-sonhos: um modo de existir em que prosperar deixa de significar acumular e passa a significar ter tempo, vínculos, propósito e qualidade de vida.
Isso não é idealismo nem utopia. São as condições mínimas para que o próprio sistema continue existindo. É sobrevivência sistêmica.
Nenhuma transição ecológica será viável enquanto continuarmos presos a um modelo de felicidade que exige mais extração, mais descarte e mais ansiedade. Trocar fontes de energia sem trocar o que entendemos por uma vida bem-sucedida é apenas mudar o motor do mesmo colapso.
É aqui que a comunicação e, em especial, a publicidade entra (ou deveria entrar) em cena.
A publicidade é a mais poderosa máquina de criação de desejos já inventada. Mas quem opera essa máquina somos nós: quem transforma estratégia em narrativa e narrativa em desejo. Criar não é neutro.
Criar é exercer poder. E, neste momento histórico, poder significa escolher o que vamos continuar tornando desejável.
Vamos seguir alimentando uma ideia de sucesso baseada em excesso, comparação e escassez emocional?
Ou usar essa mesma capacidade narrativa para ampliar o repertório do que pode ser visto como uma vida boa?
Num mundo saturado de estímulos, o papel dos profissionais de comunicação não é apenas amplificar mensagens. É funcionar como filtro de sentido. Separar o que gera valor real do que apenas produz ruído. Ajudar pessoas a desejar melhor e não apenas desejar mais.
Precisamos da transição energética, mas sobretudo, de uma transição existencial.
E ela começa no lugar onde o futuro sempre começa: na imaginação, no que escolhemos contar, mostrar e tornar desejável.