Monalisa, publicidade e o relógio do juízo final
As marcas têm o poder de agir como encurtadoras do tempo entre urgência e solução e podem ganhar em valor de marca e reputação se fizerem direito
Esses dias, lendo um livro, descobri que a Monalisa, de Da Vinci, demorou 16 anos pra ficar pronta. Foram necessários quase 6 mil dias de insistência pra criar o que hoje é a obra de arte mais famosa do mundo.
O mais interessante é que esse está longe de ser um exemplo isolado. Darwin demorou mais de 20 anos até lançar a Teoria da Evolução. Esses dias, passou na TV que a Igreja da Sagrada Família, de Gaudí, ficou pronta depois de mais de 200 anos. E passaram-se 70 anos entre as descobertas iniciais de Alan Turing e a chegada do ChatGPT.
Agora pense comigo: qual foi a última vez que você teve tanto prazo assim pra entregar um projeto?
Não precisa responder. Sei que a resposta provavelmente é nunca.
Mas é interessante lembrar que as maiores ideias do mundo levaram tempo.
O problema é que o mundo mudou e estamos na era do “sem tempo, irmão”. Seja pela nossa própria ansiedade ou pelas urgências sociais e ambientais que aparecem todos os dias, não estamos mais sabendo (e nem podendo) esperar por soluções como antes.
Na pandemia, vimos a ciência correndo contra o relógio em busca de uma vacina. Hoje, estamos buscando soluções capazes de salvar nossa espécie enquanto acompanhamos o relógio do Juízo Final (o famoso Doomsday Clock) chegar cada vez mais perto da meia-noite, horário metafórico que simboliza o quão perto estamos de um colapso global.
Ano passado, descobri que o cinto de segurança levou cerca de 60 anos pra ser testado, validado e implementado em escala. Durante esse tempo, milhões de vidas deixaram de ser salvas. Se fosse hoje, colocaríamos uma IA pra analisar toda a base de dados com mais velocidade e talvez poupássemos uma parcela dessas vidas perdidas.
Sem tempo, irmão.
Pra piorar, mesmo se somarmos todos os recursos de governos e do terceiro setor no mundo, não daríamos conta da complexidade dos problemas que temos que resolver. O copo meio cheio? As marcas têm o poder de agir como encurtadoras do tempo entre urgência e solução e podem ganhar em valor de marca e reputação se fizerem direito.
Dando um exemplo: quanto tempo demoraria pra uma ONG conseguir mapear todas as florestas do mundo em tempo real pra denunciar desmatamentos? Muito. Mas esse tempo foi encurtado quando o Google decidiu fornecer tecnologia e infraestrutura pra processar dados de satélite, permitindo o monitoramento global do que hoje é o Global Forest Watch, um dos projetos mais inovadores na conservação do planeta.
O que mais gosto nesse exemplo, além do impacto que ele gera, é que tem total conexão com o Google, que nasceu pra organizar a informação do mundo. Fica claro o valor que uma marca pode ter quando decide ser ativa na solução de um problema com o qual ela tem correlação direta.
Voltando ao Da Vinci, mais uma curiosidade: além da Monalisa, dizem que ele produziu entre 7 mil e 8 mil desenhos. Desses, apenas sete se tornaram relevantes. Pra quem não é bom em matemática, eu já fiz a conta: isso equivale a 0,1% de tudo o que ele produziu. O porquê de esses sete serem mais relevantes, jamais saberei.
Mas a pergunta que me fiz e queria dividir com vocês é: qual projeto que está hoje na nossa mesa tem o poder de ser nosso 0,1%? E por quê?
Qual projeto é coerente o bastante pra existir porque você existe? Forte o suficiente pra fazer algo que só uma marca pode fazer? Ou relevante o suficiente pra encurtar o tempo de resposta a uma urgência real?
Porque, no fim, hoje inovar talvez não seja criar mais. Ou fazer 7 mil projetos (desculpa, Da Vinci).
Inovar é agir com coragem onde não temos mais tempo a perder.