Opinião

O que esperar do marketing imobiliário em 2026

Quando o tripé produto-preço-localização ainda é importante, mas não mais suficiente em si 

Flavia Schmidt

sócia-fundadora da Talk Strategic 21 de janeiro de 2026 - 14h00

O marketing imobiliário vive um momento de inflexão. Durante anos, a comunicação do setor se apoiou na tríade produto-preço-localização, pilares que permanecem importantes, mas já não respondem às expectativas de um consumidor que compara mais, exige mais e aceita cada vez menos atrito em sua jornada.

Para encarar essas mudanças ao longo do novo ano que acaba de se iniciar, estudos produzidos por referências globais em tendências, como a WGSN, podem ajudar. O desafio, no entanto, está em usar esses insights com critério, em estratégias de fato aderentes à realidade concreta do mercado imobiliário.

Com base nessas referências, já entramos em 2026 diante de três forças simultâneas que pressionam a transformação das marcas: um calendário excepcional, um consumidor em mutação acelerada e um ambiente digital mais competitivo.

Feriadões, Copa do Mundo e eleições não são apenas eventos; são fatores que alteram a dinâmica de atenção, redesenham padrões de mídia, influenciam o custo de aquisição e moldam o humor coletivo. Esses elementos redefinem a forma como despertamos e sustentamos o interesse do comprador.

Nesse cenário, a disputa pela atenção se torna o eixo central das estratégias. Com tantos estímulos externos, o setor imobiliário não concorre apenas com seus pares, mas com todo o ecossistema da economia da atenção.

A resposta está menos na frequência de anúncios e mais na qualidade das experiências oferecidas: conteúdos sensoriais, narrativas mais humanas, jornadas simplificadas e aderentes ao cotidiano das pessoas.

Ao mesmo tempo, a lógica dos “públicos-alvo” perde força para a ascensão das microcomunidades. O comprador padrão deixou de existir e deu lugar a uma multiplicidade de perfis: nômades digitais, famílias multigeracionais, solteiros que vivem sozinhos, investidores de short stay, público 55+ em busca de bem-estar, entre outros.

Cresce o marketing que entende nuances culturais, hábitos territoriais e microcomportamentos, e que traduz essas especificidades em comunicação relevante.

A inteligência de dados, embora essencial, não substitui a sensibilidade humana (pelo menos por enquanto). Análises preditivas e segmentação geolocalizada potencializam resultados, mas precisam ser interpretadas com contexto cultural.

Tendências globais, como sensorialidade, humor, exclusividade e valorização das pequenas conquistas, só geram impacto quando traduzidas com profundidade para a realidade brasileira, considerando território, comportamento e cenário socioeconômico.

O calendário de 2026 reforça a necessidade dessa leitura refinada. Feriadões tendem a estimular buscas e conversas familiares sobre compra de imóveis, ao mesmo tempo em que ampliam dispersão de atenção. A Copa do Mundo redistribui picos de audiência e cria janelas de oportunidade que exigem precisão para evitar saturação.

Já o período eleitoral pressiona custos de mídia e reduz a previsibilidade de campanhas digitais, exigindo planejamento mais robusto e ativos de marca mais consistentes.

Diante dessa volatilidade, a construção de marca volta ao centro das decisões. Performance isolada já não garante crescimento sustentável. Marcas fortes com narrativas coerentes, códigos visuais próprios e vínculos emocionais claros capturam mais valor, tornam-se mais memoráveis e reduzem custo de aquisição ao longo do tempo.

No fim, apesar de toda a tecnologia, o que diferencia marcas é a capacidade de criar significado. Comprar um imóvel não é apenas uma transação; é uma decisão emocional, financeira e social. Conectar-se a essa complexidade, oferecendo clareza, segurança e humanidade é o que realmente gera valor.

Em 2026, o setor imobiliário precisará ser mais técnico, mais humano e mais culturalmente atento. O desafio é grande, mas a oportunidade é ainda maior.