Opinião

Como e por que o luxo entrou na estratégia dos bancos

Experiência deixou de ser campanha e virou custo de infraestrutura, passando a integrar a lógica do P&L

Lucas Dalfrancis

CEO da Notório - Estratégia e Reputação 22 de janeiro de 2026 - 6h00

No mercado financeiro, a diferenciação técnica entrou em colapso. Cartões de crédito se parecem, plataformas digitais entregam experiências equivalentes, taxas são cada vez mais negociáveis e a regulação aperta qualquer margem real de invenção.

Quando o produto vira commodity, o marketing deixa de ser persuasão funcional e passa a ser construção simbólica. É nesse ponto que os bancos entenderam algo essencial: não é mais o serviço que fideliza o cliente de alta renda, é a forma como o banco se insere na vida, no repertório e no imaginário desse cliente.

Segundo a Bain & Company, clientes de maior patrimônio concentram a maior parte da rentabilidade do sistema bancário, mas também apresentam menor tolerância a experiências genéricas.

Ao mesmo tempo, o custo de aquisição desses clientes cresce ano após ano, enquanto o custo de retenção permanece significativamente menor.

Em um mercado regulado até o limite, a lógica econômica empurra os bancos para uma conclusão pragmática: fidelizar não é branding, é eficiência financeira. O marketing, então, deixa de ser discurso e vira infraestrutura relacional.

É nesse contexto que a inteligência do mercado de luxo entra como linguagem estratégica e de real sensibilidade. Cartões associados a helicópteros, jatos ou experiências de mobilidade extrema não falam de transporte, falam de status simbólico.

Colaborações com maisons como a Montblanc, por meio de carteiras, malas ou objetos exclusivos, não são brindes, são sinais de pertencimento cultural.

No Brasil, o lançamento do Bradesco Principal explicita essa virada ao presentear clientes com obras fotográficas de Sebastião Salgado, enquanto o BTG investe em clubes fechados, experiências proprietárias e acesso cultural como parte da proposta de valor. Não se trata de ostentação, mas de curadoria.

O mercado financeiro compreendeu algo que muitas marcas ainda resistem a aceitar: experiência deixou de ser campanha e virou custo de infraestrutura. Dados do BCG e da Bain mostram que clientes com acesso recorrente a experiências exclusivas apresentam lifetime value até três vezes maior e taxas de churn significativamente menores.

Evento, jantar, viagem ou acesso cultural não são ações pontuais; são dispositivos de retenção. Saem do orçamento de marketing e entram na lógica do P&L. Não é sobre encantar, é sobre permanecer.

Há também uma mudança silenciosa no perfil de quem sustenta o faturamento. A estética jovem pauta conversa, mas o gasto real está concentrado em clientes acima dos 45 anos, com patrimônio consolidado e pouca paciência para improviso.

Relatórios da McKinsey indicam que o crescimento consistente do private banking está ancorado nesse público, que valoriza coerência, legado e previsibilidade simbólica. Antropologicamente, isso é clássico: em tempos instáveis, elites econômicas investem no que atravessa o tempo, não no que viraliza.

No fim, o luxo não é excesso ou purpurina em um mercado financeiro racional demais. É a resposta mais lógica possível. Ele organiza a relação, cria ritual, reduz fricção e protege receita. Bancos que entenderam isso deixaram de competir por produto e passaram a competir por lugar na vida do cliente.

O marketing financeiro do futuro não será mais criativo, nem mais barulhento. Será mais preciso, mais cultural e mais responsável. Porque, quando tudo é igual, o que fideliza não é a oferta. Agora é o significado.