Opinião

A hora do soft power brasileiro

Mais do que o mundo, o brasileiro precisa conhecer - e amar - o Brasil

Zé Macedo

Jornalista e CEO da one2one 29 de janeiro de 2026 - 14h00

“O Nordeste brasileiro no mundo. É pra isso que serve a cultura brasileira, o cinema brasileiro. Vamos nos amar, gente!”, foi o recado da atriz Fernanda Torres para o Brasil ao saber das vitórias de O Agente Secreto no Globo de Ouro 2026. O chamado parece dialogar intimamente com a sensação de que, apesar de o mundo amar o Brasil, o brasileiro não vive a mesma relação com seu País – ou com os diversos Brasis que aqui existem. O que falta, de fato, para os brasileiros abraçarem suas culturas da mesma forma que os gringos se apaixonam por nós?

Pelo segundo ano consecutivo, o Globo de Ouro premiou brasileiros na categoria de melhor atuação em drama – Torres em 2025 e Wagner Moura em 2026. Sob os holofotes da indústria cinematográfica norte-americana, ambos carregam alguns traços em comum em suas trajetórias: amplificam seus nomes no mercado audiovisual de lá, por meio de obras daqui, faladas em português; e espanhol, no caso de Wagner em Narcos (2015) – o que acentua sua latinidade. E mais: em entrevistas e premiações falam a língua inglesa com sotaque brasileiro, o que reforça o país de origem, imprimindo uma identidade nacional por onde passam. Quando fez Guerra Civil (2024), filme falado em inglês, Moura intencionalmente manteve o acento, por questões culturais e de representatividade. Fernanda e Wagner não se lapidam para se fazerem caber em uma indústria global – prática ainda comum no showbizz.

Quando nos voltamos para a indústria da música, 94% das faixas mais tocadas no Brasil em 2025 são nacionais, de acordo com o levantamento realizado pela Pró-Música Brasil, entidade que representa as principais gravadoras e produtoras fonográficas do País. O levantamento contempla dados das plataformas de streaming Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster. A pesquisa, lançada no início de janeiro, aponta que P do Pecado (Ao Vivo), do Grupo Menos é Mais com participação de Simone Mendes, foi a faixa mais ouvida do ano. Pela primeira vez, após sete anos consecutivos com o Sertanejo liderando o ranking, o Pagode assume o topo da lista. No top 10, além de pagode e sertanejo, faixas de música urbana (trap e funk) e forró completam o ranking. Porém, o consumo de gênero musical é fragmentado por regiões do Brasil – enquanto o sertanejo lidera no Centro-

Oeste, o forró e a pisadinha têm maioria no Nordeste e o gospel domina no Norte, por exemplo.
Ao longo de 2025, ainda na música, tivemos exemplos de como obras com identidade intituladas como regional romperam com essa lógica de consumo fragmentado e têm impactado uma audiência nacional. O piseiro de João Gomes e o tecnobrega/rock doido de Gaby Amarantos ganharam a atenção da mídia especializada e de importantes premiações. Com isso, para além do ritmo, sotaque, gíria e estética regionais chegam a mais pessoas. Ao longo dos últimos anos, se antes as novelas e o telejornalismo impunham um sotaque-padrão, hoje percebemos uma variedade – ainda tímida – de acentos em nossas produções audiovisuais. É a oportunidade de o brasileiro – todos -, se verem refletidos na TV e no streaming.

Muito tem se falado sobre soft power – capacidade de um país/território influenciar por meio de atração e persuasão, conquistando poder e prestígio sem o uso da força – e o quanto esse “poder brando/cultural” colabora para amplificar conhecimento, gerar valor de imagem e fomentar o turismo, em uma lógica de dentro para fora, do nacional para o global. Nas últimas décadas, a Coréia do Sul tem se destacado pelo uso de soft power como modelo de política pública cultural. Filmes, séries, música e gastronomia sul-coreanos têm chegado a mais pessoas de outros países e, com isso, gerado interesse pelo destino. Estatísticas apontam que, em 2017, um em cada 13 turistas que visitaram a Coréia do Sul foi motivado pelo grupo BTS. Somente em 2026, segundo o portal SayArt, o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo do país prevê investir US$1,1 bilhão (aproximadamente R$ 6 bilhões) na indústria de conteúdo cultural, que compreende música, cinema, séries, games e animação.

No caso do Brasil, temos visto esse soft power se ampliar. Para fora, mas também para dentro. Além da arte, por décadas, temos exportado atletas que se tornam ídolos globais. Na moda, nossos biquínis, peças artesanais e design autoral ganham atenção. Gastronomia, arquitetura, entre muitos outros mercados despertam o interesse de fora. Aqui dentro, todo esse poder cultural pode ser via de educação para o próprio brasileiro. Para o Brasil se amar, como convocou Fernanda Torres, ele precisa se conhecer profundamente. Para além de romper com a lógica predominante de “o que vem de fora é melhor” – herança de um passado colonial – é preciso avançar: apresentar o Brasil para o brasileiro. E mais: olhar intimamente para nossa diversidade cultural, fruto de uma extensão continental, dialogando e acolhendo os diferentes brasis que aqui se manifestam. Certamente, nossa indústria cultural, o audiovisual, o mercado publicitário e as políticas públicas são meios para essa longa jornada.