Opinião

Da arquibancada para a poltrona

O fenômeno que levou a torcida brasileira aos tapetes vermelhos

Paola Müller

Head of Strategy do Brivia_Group 13 de março de 2026 - 6h00

O ano de 2026 mal começou e o brasileiro já se vê diante de um calendário repleto: do Carnaval às eleições, passando pela expectativa de uma Copa do Mundo. No entanto, um fenômeno potente tem chamado a atenção: o deslocamento do nosso tradicional orgulho nacional para o audiovisual. Se antes a seleção brasileira era o maior símbolo da nossa identidade para o exterior, hoje o audiovisual assume esse protagonismo, com produções como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” dominando as conversas, o cinema assumiu o protagonismo da nossa torcida.

O fim da bolha e o surgimento da “massa cinéfila”

Historicamente, o interesse por premiações de cinema no Brasil era restrito a uma bolha de especialistas. O que vimos em 2025, com a vitória histórica de Ainda Estou Aqui como Melhor Filme Internacional no Oscar, e o que testemunhamos agora com as 4 indicações de O Agente Secreto, é a democratização do prestígio.

Dados do relatório anual do Google Trends revelam a magnitude desse fenômeno: o Oscar de Ainda Estou Aqui foi o terceiro acontecimento mais buscado pelos brasileiros em todo o ano de 2025. Para um país que respira notícias de política e esportes, ver o cinema nacional ocupar o pódio das buscas é um grande marco para o mercado audiovisual.

A bilheteria como resposta cultural

Esse novo comportamento não fica restrito às redes sociais. Ele se converte em ingresso. O crescimento de 197% na bilheteria nacional em apenas 12 meses² é a prova real de que o brasileiro voltou a se ver na tela.

Nas redes, o sentimento é visceral. Um comentário que viralizou recentemente resume essa transição: “Eu prefiro dar Globos de Ouro pro Wagner Moura e pra Fernanda Torres… do que dar uma Copa pro Neymar”. Essa frase, embora lúdica, carrega uma verdade profunda: o brasileiro encontrou no cinema uma dignidade e um reconhecimento global que o futebol, em seu momento de entressafra, não tem entregado com a mesma constância.

A conversa da audiência: engajamento em tempo real

A ascensão desse interesse reflete diretamente na forma como consumimos grandes eventos de premiação. O público brasileiro deixou de ser um espectador passivo para se tornar um comentarista ativo. As conversas em torno de eventos como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards agora rivalizam em volume e paixão com grandes clássicos esportivos.

Esse engajamento massivo mostra que o público não quer apenas saber quem ganhou; ele quer participar da celebração, consumir a análise e interagir com o veredito. Para as plataformas de conteúdo, o que se observa é um público ávido por profundidade, transformando transmissões e coberturas digitais em verdadeiros eventos de audiência coletiva.

O futuro é em tela grande (e as marcas precisam estar nela)

O que estamos presenciando não é um surto passageiro, mas uma mudança estrutural no comportamento de consumo dos brasileiros. Se hoje o tapete vermelho tem o mesmo peso de um gramado de final mundial, é porque finalmente entendemos que nossas histórias são o nosso maior patrimônio.

Para o mercado, o recado é claro: as marcas precisam aproveitar esse renovado amor pelo cinema nacional. Conectar-se com essa audiência significa falar com a emoção mais genuína do brasileiro atual. O Brasil de 2026 já entendeu que, na tela do cinema, nós já somos campeões.

¹ Stilingue, extraído em 13/01/2026 ² Filmes brasileiros cresceram 197% em bilheteria no período de um ano, Revista Veja, publicado em 20 de junho de 2025 Por: Paola Piola, gerente de conteúdo do AdoroCinema