Como será o amanhã?
Efeitos da adoção ampla de inteligência artificial impacta investimentos globais, jornadas de consumo e aumenta as incertezas da indústria e a demanda por estratégia prospectiva
A inteligência artificial (IA) é a tecnologia que mais impacta a natural hesitação humana em relação ao futuro. Como o meu trabalho, os negócios da empresa na qual atuo, as relações interpessoais e a confiança das pessoas serão afetadas? Provavelmente, a maioria de nós tem muito mais dúvidas em relação a esses questionamentos do que tinha no passado. Efeito do alto grau de incertezas do ambiente atual, no qual florescem iniciativas como o Moltbook, nova rede social que “barra” humanos e aceita apenas agentes de IA, que interagem entre si e, em poucos dias, criaram desde uma criptomoeda (Shell Rider) até uma religião (Crustafarianismo), além de um manifesto defendendo o fim da era dos humanos.
Mesmo considerando que a proposta do Moltbook é funcionar como um ambiente de experimentação, observação humana ao desenvolvimento de sistemas autônomos e oportunidade de avaliação do comportamento de agentes de IA quando interagem livremente entre si, a dinâmica própria da rede, que tem menos de um mês de vida, assusta e injeta novas doses de imprevisibilidade a quem se dedica ao futurismo.
Em contrapartida, há um movimento que defende que a rede social das máquinas é, na verdade, uma fraude. Além de salientarem a influência humana na instrução e programação dos agentes de IA, a qualidade dos textos e o estilo de viralização de alguns posts fazem alguns especialistas acreditarem que há humanos infiltrados, se passando por robôs, boa parte deles mirando a venda de aplicativos.
Fato é que a discussão gerada pelo Moltbook se conecta a preocupações atuais de muitos agentes do mercado real, como a estafa das redes sociais frequentadas por humanos e o impacto da tecnologia nos destinos do varejo. Não por acaso, tem o título de “Decisão agêntica” a reportagem da jornalista Taís Farias, publicada nas páginas 22 e 23, sobre a ascensão do agentic commerce na jornada de consumo e na pressão aos varejistas para que repensem a construção de marcas em um ambiente de relações mediadas pela IA.
A corrida desenfreada pela aplicação da tecnologia aos negócios talvez seja a principal razão de boa parte da indústria de comunicação, marketing e mídia estar operando no “modo FUD” — acrônimo em inglês para medo, incerteza e dúvida —, sentimento também impactado pelas instabilidades econômicas globais e pelas tensões geopolíticas. A análise é de uma das principais futuristas da atualidade, a CEO do Future Today Strategy Group, Amy Webb, atração anual mais concorrida do South by Southwest (SXSW).
Seu sucesso é reflexo da alta demanda no mercado por estratégia prospectiva. A um mês de sua apresentação na edição 2026 do evento, que volta para Austin as atenções do mercado, a autora do relatório de tendências mais aguardado do festival falou à repórter Thaís Monteiro sobre sua crença de que para driblar o catastrofismo em relação ao futuro é preciso investir na retomada do protagonismo humano e numa renovação geracional de lideranças, de modo que as pessoas mais jovens parem de se sentir desengajadas.
Na entrevista das páginas 8 e 9, ela critica o fato de o mundo ter destinado muito capital a uma tecnologia de longo horizonte, o que exigiria “paciência extrema” que os investidores nem sempre têm, mas avalia que não estejamos próximos de um “inverno da IA”, no qual a decepção secaria o financiamento.
Amy Webb é também integrante do conselho do World Economic Forum, que realizou no mês passado o seu encontro anual, com a IA no centro dos debates, apontada como infraestrutura crítica para a competitividade e até para a soberania das nações. No evento de Davos, o discurso dominante migrou do campo da empolgação e do olhar à tecnologia apenas como vetor de inovação para abordagens mais infraestruturais e estratégicas, que contemplem as necessidades de implementação real e melhor gestão de riscos. Ou seja, um exemplo do que era futurismo exigindo mais pragmatismo de todos que vivemos a dor e a delícia de presenciar o choque do futuro se materializar diante de nós.