Opinião

Pense localmente, aja globalmente

Depois de anos trabalhando para marcas internacionais, aprendi algo simples e poderoso: o sucesso global acontece quando a verdade local é respeitada

Alexandre Bassora

Fundador da Audaz 5 de fevereiro de 2026 - 14h00

Viva a criatividade e o cinema brasileiro. O Agente Secreto, com quatro indicações ao Oscar, revela mais do que uma sequência, como foi Ainda Estou Aqui, de reconhecimento merecido do talento artístico e cinematográfico brasileiro.

Nas artes e na indústria criativa, como a da propaganda, acredito que testemunhamos um redesenho do contexto e da relevância do local frente ao global. O micro transformando o macro. O particular inspirando o todo. O cinema independente. As agências independentes, que são muitas e são locais.
Marcas são como pessoas. Estão em movimento. Em busca de novidades. De criar conexões verdadeiras. Genuínas. Histórias boas para contar. Tão bom quanto assistir ao triunfo de atores extraordinários como Wagner Moura é perceber o quanto está em xeque o conceito, ao menos nas artes e na propaganda, do “think global, act local”. Bobagem isso. A gente vive e pensa local.

Depois de anos trabalhando para marcas internacionais, aprendi algo simples e poderoso: o sucesso global acontece quando a verdade local é respeitada. Ainda hoje, empresas tentam operar globalmente sem compreender a realidade das pessoas em seus próprios mundos, o que vivem, o que desejam alcançar. Culturas diferentes. Contextos diferentes. Necessidades diferentes.

Triste constatar que muitas marcas ainda insistem em propagar a mesma mensagem, o mesmo conteúdo, a mesma solução em todos os lugares. Ótima fórmula para o insucesso. E não, a IA não será, nunca será, uma solução universal. Pense: as respostas de um chat de IA consideram interações e conteúdos do mundo inteiro. Quem faz o filtro local?

O resultado? Desconexão. Confusão. Fracasso. Ilusão. Fake plastic tree.

As pessoas não vivem vidas globais. Vivem vidas locais, cheias de contexto, cultura, nuances e significado. Sem conhecimento local real, não há impacto global real. Estratégias rígidas não acompanham a velocidade com que comunidades, digitais ou físicas, reagem, criam e transformam.
Se você quer construir uma marca com relevância internacional, pense localmente e, ao mesmo tempo, conecte-se e agregue valor à estratégia global. É assim que se constrói relevância. É assim que as marcas crescem. Agências independentes sabem disso muito bem.

Em um mundo cada vez mais conectado, agir globalmente exige compreender a realidade humana. Mais do que nunca. Marcas são pessoas. Empresas e marcas que abraçam essa verdade não apenas entram nos mercados, elas pertencem a eles.

Em um momento tão ameaçador para as democracias ao redor do mundo, diretores como Kleber Mendonça Filho e Walter Salles Jr. pensaram e deram voz ao local. Olhando para o passado, refletindo o presente. São lições de vida. Histórias que precisam ser conhecidas aqui e lá fora para que não se repitam. Para que inspirem.

Ao mesmo tempo em que revela novos protagonistas, parece impossível à nova ordem mundial limitar a presença no palco de comunidades que anseiam ter seus dramas e demandas ouvidos e considerados. Em um mundo repleto de diferenças, é urgente saber ouvir. Conhecer pessoas no detalhe.

Marcas precisam abraçar e contextualizar suas verdades, na essência, no respeito às características e à cultura de cada comunidade, para construir pertinência. Assim, o mundo as espera. De peito aberto.
Simples e poderoso. Sem segredos. Pense local. Aja global. Contextualize. Desafie o algoritmo. Sejamos únicos, inspirando o todo.