Opinião

Bad Bunny e o amor que sustenta o risco

Quando a segurança coletiva permite o salto — no palco, na cultura e nos negócios

Gustavo Luveira

Sócio do Bona Casa de Música 10 de fevereiro de 2026 - 19h07

Entre tantos frames possíveis da apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, um me atravessou de um jeito diferente: o momento em que ele se joga de costas e é amparado pelos seus. Não é coreografia. É símbolo.

Ali tem uma imagem poderosa sobre pertencimento: quando você está entre pessoas que sustentam seus sonhos, você pode cair. Pode se jogar. Pode arriscar. Não por imprudência, mas por confiança.

É um retrato simples e raro de segurança emocional num palco que costuma premiar o oposto, o ego isolado, o “self-made man” que nunca precisou de ninguém.  Bad Bunny fez o contrário. Ele mostrou que chegou ali com alguém.

Outro detalhe importante. E não estou falando do recorde de audiência com mais de 135 milhões de expectadores. Estou da falando da língua. O espanhol não foi traduzido, suavizado ou “globalizado”. Ele não tentou caber. Ele ocupou. A estética, os códigos, os corpos ao redor dele diziam a mesma coisa: isso aqui é nosso, e não precisa pedir permissão. Talvez por isso muita gente tenha lido aquele show como uma mensagem de amor. Não amor romântico, mas amor como estrutura, como rede. Amor que sustenta o risco. E para quem não entendeu com uma mensagem de amor, meus sentimentos.

No Brasil, essa imagem deveria nos provocar mais do que emocionar. A gente cresceu aprendendo a buscar pertencimento fora. A validar o que é nosso só depois que alguém de fora aplaude. O famoso complexo de vira-lata não é só cultural, é quase pedagógico.

O livro Coisa de Rico, do Michel Alcoforado, fala justamente disso: pertencimento não é detalhe, é motor. A forma como crescemos, nos desenvolvemos e nos projetamos no mundo passa por essa busca constante por lugar, reconhecimento e aceitação. Quando alguém – ou alguma estrutura – nos oferece isso, as consequências costumam ser profundas. E bonitas.  Bad Bunny entendeu isso como artista. A pergunta é: quem entende isso como marca?

Porque, olhando para o mercado, o contraste é evidente. Estudos recorrentes de branding e consumo, mostram que marcas que se associam de forma contínua e não oportunista, à cultura local tendem a construir vínculos mais profundos de afinidade e confiança com o público. Ainda assim, muitas seguem preferindo o “seguro”: formatos importados, narrativas neutras, artistas já validados lá fora.

É curioso ver que marcas que falam tanto em propósito ainda tenham dificuldade de sustentar movimentos nacionais quando eles são complexos, contraditórios ou profundamente enraizados. Apoiar cultura não é só estampar logo em palco lotado. É estar presente antes do hype, durante o risco e depois do aplauso.

Bad Bunny não virou símbolo latino porque foi “bem aceito”. Ele virou porque foi sustentado. Por uma comunidade, por uma cena, por um ecossistema que não permitiu que ele se moldasse por menos.

Talvez o ponto não seja perguntar por que o Bad Bunny chegou tão longe. Mas sim porque, aqui, ainda é tão raro ver artistas podendo se jogar, certos de que alguém vai segurá-los.