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Eletricidade pode definir a guerra da IA, diz Deloitte

Para o economista-chefe da empresa, inteligência artificial esbarra no gargalo da energia e risco de bolha

i 12 de janeiro de 2026 - 6h03

Assim como em 2025, a inteligência artificial se tornou um tema quase onipresente na programação da NRF 2026 e na ambição dos varejistas que precisam ajustar a sua oferta a um consumidor que busca, cada vez mais, os modelos de inteligência artificial generativa como curadores de suas compras. No entanto, quando o assunto é economia, o tom da conversa começa a migrar da euforia para a preocupação.

Como a eletricidade pode

Ira Kalish, economista-chefe da Deloitte, na NRF 2026 (Crédito: Taís Farias)

Economista-chefe da Deloitte, Ira Kalish, explica que a construção de data centers desempenhou um papel crucial no crescimento da economia. Nos Estados Unidos, no primeiro semestre de 2025, duas categorias foram responsáveis por 90% do Produto Interno Bruto (PIB) do país: o investimento empresarial em equipamentos de tecnologia e em software.

Em paralelo, a euforia com a IA levou a um salto no preço das ações de empresas relacionadas ao setor o que, segundo Kalish, impulsionou o consumo das famílias de alta renda no país.

“O que sugere que, se houvesse um estouro da chamada ‘bolha da IA’, com uma queda nos preços das ações e do investimento, todo esse crescimento desapareceria e a economia desaceleraria bruscamente ou, talvez, entraria em uma recessão. Esse é claramente um risco agora”, opinou o economista-chefe.

Ele citou as comparações do momento atual com a bolha do Ponto.com ou da internet, no início dos anos 2000. Na bolha da Internet, uma série de empresas digitais faliram depois de não conseguir comprovar a sua sustentabilidade sem os investimentos massivos do mercado de capital.

“As empresas que, hoje, investem em data centers podem estar preocupadas por estarem contraindo uma enorme dívida para essa implementação e não está claro quando o lucro compensará o investimento. Se os investidores ficarem preocupados, isso pode levar a uma redução drástica nos preços das ações”, descreve.

Mas, para Kalish, existem ainda outras preocupações envolvendo a inteligência artificial. Ele destaca o consumo de eletricidade gerado pela tecnologia: “A demanda por eletricidade neste país subiu drasticamente, mas a oferta não acompanhou na mesma proporção. O resultado foi um grande aumento nos preços da energia”, aponta.

Um agravamento nesse quadro pode representar um aumento de dois dígitos no preço da eletricidade nos Estados Unidos nos próximos dois anos, o que comprometeria o orçamento das famílias especialmente para gastos supérfluos.

“A questão da eletricidade será muito importante e é notável que os chineses têm aumentado massivamente sua capacidade de geração elétrica. A China agora pode gerar o dobro de eletricidade que os EUA, apesar de ter uma economia menor, o que os coloca em uma boa posição para dominar o mercado de IA”, afirma.

Para além da bolha financeira e dos recursos necessários nessa corrida, existem as transformações no universo do trabalho. O economista-chefe da Deloitte afirma que já existem evidências de que as companhias estariam começando a reduzir a contratação de profissionais em nível inicial, especialmente recém-formados.

“Se as empresas não estão contratando profissionais iniciantes para desenvolvê-los ao longo do tempo, quem serão os líderes do futuro? Eu não tenho a resposta, mas é uma questão que terá de ser resolvida”, provocou. Apesar do alerta, ele considera que, a longo prazo, a IA deve trazer ganho de produtividade para além da área de tecnologia.

As tarifas e a economia norte-americana

O economista-chefe da Deloitte também fez uma análise sobre as tarifas impostas pelo governo do presidente Donald Trump, o tarifaço, na economia dos Estados Unidos. Para Kalish, a discussão sobre as tarifas teria arrefecido à medida que elas não geraram um impacto tão grande quanto o esperado na economia até o momento.

Porém, ele destaca que a taxa média imposta pelos EUA atualmente é a mais alta em quase um século. Ele também questiona as justificativas apresentadas pela administração para o tarifaço, como uma revitalização da manufatura no país.

“O problema com as tarifas é que elas geram custos mais altos para os fabricantes. Quase metade do que importamos são bens intermediários, usados por fabricantes para produzir bens finais, seja para o mercado interno ou para exportação. E, agora, essas empresas enfrentam custos muito mais altos. Custos que não são compartilhados por seus concorrentes estrangeiros, o que significa que, quando exportam, são menos competitivas”, explica. Esse cenário poderia gerar uma redução nos empregos.

Nesse sentido, Kalish acredita que as tarifas devem gerar um aumento gradual na inflação. “Se excluirmos o período da pandemia, estamos vendo agora alguns dos maiores aumentos nos preços de bens duráveis dos últimos 30 anos”, afirma.

Ele explica que muitas companhias anteciparam suas importações antes que as tarifas fossem aplicadas, o que postergou seu efeito. Além disso, muitas companhias não estariam repassando totalmente o custo das tarifas para o consumidor, pressionando sua margem de lucro, por acreditarem que a medida seria temporária.

“No próximo ano, minha expectativa é que passemos de uma inflação que agora está na casa de 2,5% a 3% para possivelmente uma inflação de mais de 4% a, talvez 4,5%, até o final deste ano. E, se assumirmos que os salários não acompanharão esse nível de inflação, isso será um golpe no poder de compra do consumidor”, analisa o economista-chefe da Deloitte.