Opinião

O legado é sempre uma troca

Memórias coletivas ajudam a consolidar a forma como experimentamos e lemos o mundo e nossas escolhas, como profissionais que trabalham marcas e suas expressões, fazem diferença no mundo

Juliana Barreto

Diretora de Revenue da Tátil Design 12 de fevereiro de 2026 - 6h01

Em um daqueles momentos de rolagem sem fim no Instagram, o algoritmo — que não é de todo ruim — me entregou uma pérola que me fez refletir. Fui impactada por um corte do Conversa com Bial com o Emicida (inclusive, recomendo assistir à entrevista inteira).

No trecho, o cantor, compositor e apresentador fala de forma muito sensível sobre sua mãe e seus ensinamentos. Ele começou a gravar as falas da mãe, sempre muito sábias, com a intenção de transformá-las em um rap, quase como uma brincadeira para a mãe, que não gostava do gênero musical. Com a sua partida, essas falas ganharam um novo significado e se transformaram em uma música cheia de amor e presença. E, entre essas frases, veio aquela que ecoou na minha cabeça: “O legado é sempre uma troca.”

Entre um papo sobre a diferença entre preço e valor, Emicida passa a falar sobre como o valor está diretamente ligado ao potencial humano e como esse potencial é infinito. Na minha cabeça — como boa apaixonada por comportamento e compartilhamento simbólico — no momento em que a palavra “valor” surge na conversa, minha mente automaticamente vai para o campo em que atuo com as marcas: proposta de valor, propósito e o direcionamento estratégico-criativo voltado ao simbólico que elas constroem no mundo para que suas mensagens consigam romper o ruído diário de tanta comunicação e, assim, se conectar de forma genuína com seus públicos.

E, se entendemos esses símbolos como legado, nossa responsabilidade aumenta. Em uma rotina pautada por briefings e metas ambiciosas de negócios, é sempre importante manter a clareza de que esses movimentos também ajudam a moldar a sociedade em que vivemos — e aquela que queremos construir. É inegável o quanto “publicidade e propaganda” (com muitas aspas aqui, porque sabemos que há muitas outras disciplinas envolvidas) ajudam a ditar e/ou consolidar a estética e os comportamentos do nosso tempo.

Ao longo da minha vida, vi mundos inteiros de possibilidades sendo projetados a partir de propagandas de cigarro — uma insanidade, diga-se de passagem. Fui impactada pela exaltação da magreza extrema no universo da moda dos anos 2000, vi o acolhimento da beleza real no mercado de cosméticos e a força do “o importante é fazer” no mundo dos esportes. É inegável como esses símbolos me atravessam — e atravessam tantas outras pessoas — e como essas memórias coletivas ajudam a consolidar a forma como experimentamos e lemos o mundo.

Tudo isso para dizer que a grande reflexão é: nossas escolhas, como profissionais que trabalham marcas e suas expressões, fazem diferença no mundo. Toda vez que escolhemos A e não B, estamos decidindo quais símbolos e quais valores colocamos em circulação, com potencial real de serem compartilhados. Símbolos compartilhados moldam comportamentos, relações e atitudes. Não devemos e nem podemos subestimar o alcance dessa semente.

Para encerrar, Emicida traz mais uma frase que amplia essa discussão: “eu deixo, mas eu também levo”. Que sejamos capazes de entregar o nosso melhor ao mundo e, ao mesmo tempo, nos manter abertos para que ele também nos atravesse de olhos e peito abertos permitindo que esse encontro refine, revele e reflita os valores que escolhemos carregar.