Opinião

Sistema é estratégia

Por que o próximo ciclo não será vencido por quem tem mais ideias

Fernando Boscolo

CEO da Privalia 11 de fevereiro de 2026 - 14h01

Nos últimos anos, o debate sobre estratégia corporativa foi contaminado por excesso de retórica e pouca engenharia organizacional. Muito se fala em propósito, inovação e crescimento, mas pouco sobre escolhas difíceis, capacidade real de execução e desenho de sistemas que sustentem decisões de forma consistente.

Ao longo de três anos participando do YPO/Harvard Presidents’ Program, na Harvard Business School, esse contraste ficou ainda mais evidente. Quando líderes conseguem se afastar do ruído do curto prazo e retornar aos primeiros princípios, a pergunta central deixa de ser “o que queremos fazer?” e passa a ser “o que somos capazes de sustentar sem quebrar a organização?”.

Esse deslocamento de perspectiva ajuda a organizar quatro teses que considero centrais para o próximo ciclo das empresas.

Estratégia é, antes de tudo, escolha

O principal limitador das organizações bem-sucedidas raramente é falta de talento ou de oportunidade. É a incapacidade de abandonar caminhos que já fizeram sentido. Estratégia exige renúncia, exige coragem para dizer não — inclusive para projetos bons, mas desalinhados. Sem esse exercício, o que se chama de estratégia é apenas acumulação de iniciativas.

Crescimento não é intenção; é capacidade organizacional

Crescer sem revisar estrutura, governança e processos costuma gerar uma falsa sensação de avanço, enquanto fragiliza a execução. Antes de acelerar, é preciso responder com clareza onde competir, como organizar e em qual ritmo operar. O crescimento sustentável é consequência de decisões estruturais, não de desejo ou ambição isolada.

Cultura não é narrativa, é sistema operacional

Empresas com culturas fortes não são aquelas que comunicam melhor seus valores, mas as que reduzem a variabilidade na execução. Isso acontece quando há clareza sobre os comportamentos esperados, rituais consistentes de acompanhamento e incentivos alinhados aos inputs corretos. Os resultados vêm depois. Cultura, nesse contexto, funciona como um mecanismo de previsibilidade, não como discurso inspiracional.

Inteligência artificial é uma agenda de liderança

Tratar inteligência artificial (IA) como um tema técnico ou restrito à área de tecnologia é um erro estratégico. A incorporação real de IA exige redesenho de processos, novas métricas de produtividade e decisões sobre onde a tecnologia efetivamente muda a qualidade do trabalho. Esse tipo de escolha não pode ser terceirizada – cabe à liderança definir onde a IA cria vantagem competitiva e como ela se integra ao fluxo de decisão.

Essas quatro dimensões apontam para uma conclusão mais realista: o próximo ciclo não será vencido por quem tem mais ideias, mas por quem constrói sistemas melhores. Menos complexos, mais focados, com cadência clara, alocação disciplinada de talento e decisões mais rápidas.

Resultados são importantes, mas são o efeito, enquanto o que diferencia empresas consistentes é a qualidade do sistema que produz esses resultados.