É hora de repensarmos as marcas e propósitos

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É hora de repensarmos as marcas e propósitos

Vários negócios surgem em crises; que essa seja a crise dos negócios criados para tornarmos o mundo um lugar melhor


22 de abril de 2020 - 13h45

(Crédito: Nuthawut Somsuk-IStock)

Talvez tenha sido a Páscoa. Pode ser que sejam os efeitos da quarentena. Ou simplesmente a soma de tudo o que está acontecendo neste momento em praticamente todo o mundo com a reflexão da data. Refletir é o mínimo em um momento de crise como o que estamos passando. Refletir sobre tudo. Inclusive sobre comunicação, marca, marketing, negócios e pessoas. Como temos olhado para o próximo. Como marcas e como profissionais.

A verdade é que há algum tempo eu venho conversando com outros profissionais e refletindo sobre uma mesma questão: tudo está direcionado para lucrar e vender mais. Ou vender e lucrar mais. A ordem dos fatores não importa neste caso. Apenas o fato de estarmos em movimento buscando exclusivamente o lucro e o dinheiro. Sem propósito. O único norte sendo um papel que nem papel é mais. Já é virtual na maior parte do tempo.

Podemos ver marcas direcionadas exclusivamente para o financeiro. Tratando pessoas como um mero número. Sem considerar o momento para ser humano. Mesmo com todas as alternativas já colocadas pelo governo federal. Que vale ressaltar, está fazendo mais pelas empresas do que pelas pessoas. Ainda assim podemos ver várias marcas mais preocupadas em usar o momento como oportunidade para sair na frente da concorrência ao invés de pensar como efetivamente poderiam estar contribuindo socialmente neste momento. Negócios errando a mão em campanhas publicitárias e anúncios nas redes sociais.

Mas precisamos reconhecer que também há um movimento contrário. São várias as marcas que estão olhando para as pessoas. Não me refiro a aquelas que estão buscando em como continuar apenas entregando os seus produtos ou serviços a partir de um novo modelo de negócio. Me refiro aos negócios dedicados para ajudar neste momento de crise. Marcas que – se não tem dinheiro – ajudam com serviços ou de algum outro jeito que possam. Mas ajudam. Estão fazendo alguma coisa. Seja fabricando máscaras ou álcool gel, doações de cestas básicas, cursos gratuitos para as pessoas – mais que se desenvolverem – ocuparem o seu tempo, redes de hotéis cedendo os seus espaços, pequenos negócios como confeitarias, padarias e restaurantes doando o que sobrou das suas produções, e por aí vai.

O momento é de refletir sobre os nossos propósitos e como a oportunidade para construirmos uma sociedade colaborativa está na nossa frente. Escancarada. O quanto podemos unir forças e ideias para frentes de trabalho que objetivem o social e não a economia. Valorizar negócios sociais ou com impacto social relevante e os pequenos negócios locais. Vejam, uma empresa precisa ser sustentável financeiramente, óbvio. Mas ser saudável não significa que precisamos querer mais, mais e mais. Cada vez mais lucro. Cada vez menos ser humana. Cada vez menos social.

Oportunidade é bem diferente de oportunismo. Oportunidade é uma circunstância favorável para a realização de algo. Oportunismo é tirar proveito de uma situação para realizar uma ação que leve a algum ganho pessoal.

Um exemplo de oportunismo é um anúncio que me impactou ontem. O anúncio no Instagram trazia uma viagem em 2021 para Paris por R$ 1.999 com hotel e aéreo. Puro oportunismo. Eu poderia citar vários exemplos de marcas que estão aproveitando a oportunidade para fazer algo real. Vou citar um em especial porque ele traz dois pontos. O mercado de delivery está bombando. Fato. Grandes marcas sendo acusadas de condições precárias para os seus entregadores cadastrados. A startup curitibana James Delivery está dobrando a gorjeta paga pelos clientes aos entregadores e levantando doações para três ONGs. Simples. Social.

Devemos usar o momento para rever. Se estamos sendo obrigados a isso, façamos isso. Precisamos usar o desconforto que estamos passando e os desafios que cada um está passando. Seja quem está na linha de frente em serviços essenciais ou quem está em casa – em segurança – mas lidando com as suas angústias e pressões. Só estamos em casa porque há pessoas que estão cuidando da gente lá fora. Precisamos fazer valer o esforço delas. O mundo que elas estão vivendo lá fora já está diferente. Quando voltarmos, será a nossa vez de cuidar delas. Cuidar da gente. Cuidar de todos. Uma nova sociedade coletiva e colaborativa. Isso vale para as pessoas. Isso vale para os negócios.

Vários negócios surgem em crises. Que essa seja a crise dos negócios criados para tornarmos o mundo um lugar melhor. De verdade. Mais humano.

*Crédito da foto no topo: JBKdviweXI/ Unsplash 

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