15 milhões de meritocracistas

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Opinião

15 milhões de meritocracistas

O metaverso está se formando a partir de uma lógica colonialista aplicada ao digital


21 de março de 2022 - 11h46

Texto faz alusão ao episódio 15 Million Merits, da série Black Mirror (Crédito: Reprodução/YouTube/ Kim-o-san)

Paul Preciado acertou ao afirmar que “Não foram o motor a vapor, a imprensa ou a guilhotina as primeiras máquinas da Revolução Industrial, mas sim o escravo trabalhador da lavoura, a trabalhadora do sexo e reprodutora, e os animais. As primeiras máquinas da Revolução Industrial foram máquinas vivas”.

Preciado conclui: o feminismo não é um humanismo, pois a opressão masculina aos seres femininos transcende a espécie humana. E aqui eu complemento: o machismo é um racismo, pois parte da mesma lógica, fundada na ideia de um corpo ideal único (masculino e branco), na qual todas os corpos diferentes estão numa escala inferior, tratados como propriedades e negociados como mercadorias. E as violências contra esses corpos distintos são sempre justificadas e incentivadas. É a base do projeto e do pensamento colonial.

O colonialismo é um design, e através dele se estabeleceu uma realidade. Não é exagero dizer que colonialismo é um metaverso aplicado no plano físico. Como pontua Dario Calmese, fotógrafo e fundador do Institute Of Black Imagination “Dos objetos do nosso cotidiano as hierarquias e estruturas sociais nas quais nos encontramos, tudo isso partiu de um pensamento, uma ideia. E esses conjuntos foram projetados, mas eles também nos projetam, moldando nossos pensamentos, desejos e a forma que percebemos o mundo.” Mas essas estruturas foram criadas por um grupo específico e para a prosperidade desse mesmo grupo, às custas das explorações de todos os outros grupos e do meio ambiente.

E mais crítico e urgente: o metaverso está se formando a partir de uma lógica colonialista aplicada ao digital.

Todo a estrutura intelectual, cultural e econômica do metaverso (e correlatos da moda, como NFT e blockchain) está se formando através das visões e ambições desse mesmo grupo. E as contribuições e necessidades de grupos historicamente minorizados continuam sendo ignorados ou repelidos com força (através de futuras regulações que garantirão que as coisas funcionem de acordo com as verdades uníssonas e monolíticas desse grupo – e até lá, não serão raros os episódios de histeria coletiva constrangedora como a que tomou as redes profissionais quando Igor Puga compartilhou suas considerações e questões aqui nessas mesmas páginas).

Não à toa, os personagens principais do profético episódio “15 Millions Merits” de Black Mirror – sobre Metaverso, NFT e blockchain – são exatamente um homem negro e uma mulher – e suas vidas e destinos não são nem um pouco felizes.

E trago aqui novamente as provocações de Calmese: Como promovemos um novo design com base abolicionista? Como podemos questionar essa realidade posta / imposta e a partir disso desenvolver nossas modalidades de saber e viver? Ele ainda cita Paulo Freire, ao dizer que o caminho dessa reconstrução não passa por uma transferência de poder, mas da restauração da humanidade (ou, puxando Preciado, da nossa animalidade)?

Desenvolvimento tecnológico feito a partir da mesma lógica que atende e beneficia a mesma classe hegemônica de sempre (com a consequente manutenção da inacessibilidade de outros grupos sociais e a destruição do meio ambiente) não é inovação: é apenas expansão do patriarcado e do pensamento colonial.

O futuro não está dado, mas está num momento de disputa sobre como ele será construído e, mais importante, por quem.

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