Marketing

IA avança no setor de eventos, finanças permanecem off-line

Estudo aponta que tecnologia é usada principalmente em marketing, enquanto gestão financeira ainda é manual

i 14 de janeiro de 2026 - 16h54

Setor de eventos avança no uso de IA, mas finanças seguem manuais (Créditos: JD8/Shutterstock)

Setor de eventos avança no uso de IA, mas finanças seguem manuais (Créditos: JD8/Shutterstock)

Para compreender melhor o estágio de digitalização e uso de tecnologia no setor de eventos, a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), em parceria com a empresa de tecnologia Peppow, lançou a pesquisa IMD ABRAPE | Peppow 2025/2026.

O levantamento ouviu 74 empresas e profissionais, principalmente sócios, proprietários e diretores, e analisou gestão financeira, processos, ferramentas e uso de inteligência artificial (IA).

Segundo Doreni Caramori Júnior, presidente da Abrape, “o estudo busca entender como processos, ferramentas, gestão financeira e IA se conectam ou não com a sustentabilidade econômica das operações”.

“A ideia é estabelecer um ‘ponto zero’, que permita acompanhar a evolução do setor ano a ano, com dados comparáveis, e orientar empresas, associações e formuladores de políticas públicas”.

Setor aposta em IA parcial

O estudo revelou que, embora 79,7% dos respondentes declarem familiaridade com IA, a tecnologia ainda é usada majoritariamente para criação de conteúdo, como textos, imagens e propostas, e pouco aplicada à gestão de margem, fluxo de caixa e decisões financeiras.

Entre as empresas que apontam definir margem e precificação como maior dor, apenas 25% usam IA para essa finalidade.

Doreni explica o motivo: “Aplicar IA à gestão financeira exige dados estruturados, processos organizados e integração entre sistemas, algo que ainda não é realidade para grande parte do setor. Criar conteúdo com IA é rápido, acessível e independe de maturidade operacional. Já usá-la para precificação, margem ou fluxo de caixa pressupõe histórico confiável de custos, contratos, impostos e pagamentos, e muitos negócios ainda operam com planilhas desconectadas e negociações espalhadas em canais informais.”

O levantamento dividiu o setor em três níveis de maturidade digital: baixa (37,8%), média (35,1%) e alta (27%).

Empresas B2C, cuja receita principal vem da venda de ingressos, apresentam 40,7% de maturidade digital alta, enquanto empresas B2B, que dependem de contratos corporativos, patrocínios e verbas públicas, alcançam 23,7%.

Segundo Doreni, a diferença está na integração dos processos: “O B2C foi forçado a se digitalizar mais cedo por causa da bilheteria online, dos sistemas de pagamento e do split automático. No B2B, mesmo com contratos e POs, ainda prevalecem planilhas soltas, processos manuais e pouca integração entre contrato, faturamento e pagamentos.”

O uso de canais de comunicação, especialmente o WhatsApp, também traz desafios. A pesquisa mostra que mensagens instantâneas já competem com e-mail e redes sociais, mas dificultam o registro estruturado de dados para tomada de decisão e aplicação de IA.

Fluxo de caixa freia inovação

Outro ponto identificado é a baixa reserva de caixa. Mais de 58% das empresas estão na menor faixa de fôlego financeiro, o que reduz a capacidade de investir em tecnologia, treinamento e mudança de processos.

Segundo o presidente, “ter pouca reserva de caixa empurra decisões de curto prazo, como antecipação de recebíveis ou descontos excessivos, em vez de investimentos estruturantes. Muitas empresas acabam vendendo o futuro para pagar o presente, o que dificulta a adoção de soluções digitais mais robustas e o uso estratégico da IA.”

O estudo também indica que maturidade digital não depende do tamanho da empresa, mas do modelo de gestão.

Doreni exemplifica: “Vemos microempresas tão maduras quanto grandes quando conseguem integrar processo, ferramenta e dados. É uma questão de modelo de gestão, não de orçamento de TI. Empresas mais maduras conseguem precificar melhor, negociar com mais segurança e absorver riscos, independentemente do tamanho, ampliando a competitividade no médio prazo”.

“A maturidade digital e a IA serão decisivas para a profissionalização do setor. Não como modismo, mas como infraestrutura de sobrevivência econômica. Empresas que conseguirem integrar dados financeiros, contratos, fornecedores e pagamentos terão mais previsibilidade, margem e capacidade de crescimento”, finaliza.