Mídia

Adolpho Veloso: “É melhor ter destaque no Brasil para depois se exportar”

Indicado ao Oscar, diretor de fotografia relembra trajetória na publicidade e divide ensinamentos para profissionais do setor

i 5 de fevereiro de 2026 - 6h00

adolpho veloso oscar

Adolpho Veloso nos bastidores de “Sonhos de Trem” (Crédito: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams)

A indicação de Adolpho Veloso ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Fotografia marca um novo capítulo na trajetória de um profissional que construiu repertório entre a publicidade, os clipes musicais e o cinema autoral. Em entrevista exclusiva, o diretor de fotografia fala sobre o caminho que o levou até “Sonhos de Trem”, obra reconhecida pela crueza visual e pelo uso extensivo de luz natural, e reflete sobre como a experiência em formatos curtos moldou sua abordagem estética e técnica.

Formado no ritmo acelerado da publicidade, Veloso trabalhou para marcas globais como Nike, Adidas e Leica. Ao olhar para trás, ele não separa rigidamente os meios: para o fotógrafo, publicidade, cinema e clipe são variações de um mesmo princípio – contar histórias em imagens. A diferença, diz, está no tempo. “A grande vantagem da publicidade é o fato das coisas serem um pouco mais rápidas. Então filmamos hoje, semana que vem já saiu e você tem uma repercussão ao redor disso, conseguindo enxergar os erros e evoluir mais rápido de certa maneira”, afirma. Esse ciclo curto, aliado à possibilidade de experimentar equipamentos e soluções criativas sob restrições de roteiro e orçamento, foi decisivo para desenvolver repertório técnico e capacidade de resolver problemas em cena.

A passagem pelos clipes musicais, com trabalhos para Pabllo Vittar, Gloria Groove e BK, ampliou ainda mais esse campo de experimentação. Veloso vê nesses projetos uma liberdade estética maior e um compromisso menos rígido com a narrativa tradicional, sem perder o foco emocional. “Sempre encarei tudo como um filme. Uma chance de traduzir uma história em imagens, mesmo quando ela não está toda explicitada”, diz.

Em “Sonhos de Trem”, essa visão se materializa em escolhas que exigiram planejamento extremo e, ao mesmo tempo, abertura ao acaso. A decisão por uma fotografia orgânica, dependente de luz natural, colocou o controle do set em constante negociação com o ambiente. “Você se planeja para estar na hora certa, no lugar certo, mas precisa abraçar o que acontece”, conta. Mudanças climáticas, a presença de crianças e animais e a imprevisibilidade do cotidiano foram incorporadas como elementos narrativos. Em vez de frustração, adaptação – uma lógica que ele associa ao aprendizado acumulado em sets publicitários.

A indicação ao Oscar chega em um momento simbólico para o audiovisual brasileiro, que registra recorde de reconhecimento internacional com a sua presença e também do filme “O Agente Secreto” em quatro categorias da premiação. Para Veloso, trata-se de um prestígio tardio, mas necessário: “Isso faz as pessoas entenderem o quão essencial é investir em cultura e também desconstrói preconceitos principalmente em relação a esses investimentos”.

Ele vê o atual ciclo como uma oportunidade de reposicionar o Brasil não apenas como produtor de boas histórias, mas como pólo técnico e estético capaz de influenciar o cinema mundial. “Nosso país está sendo cada vez mais visto como uma potência cultural e não só pelos filmes e arte brasileiros, mas pelos talentos nacionais trabalhando fora do Brasil.”

Adolpho Veloso Oscar

Adolpho Veloso, diretor de fotografia brasileiro indicado ao Oscar 2026 (Crédito: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams)

Quando fala com jovens profissionais que hoje filmam comerciais de 30 segundos e sonham com a Academia, Veloso evita fórmulas prontas. Em vez disso, defende a construção de um corpo de trabalho sólido no Brasil, em colaboração com outros talentos locais. “Melhor do que ir para fora, vale muito mais a pena tentar fazer um corpo de trabalho forte no seu próprio país e se destacar, ganhar prêmios, para depois exportar isso.”

E, se a técnica e o método explicam boa parte do caminho até Hollywood, há espaço para a paixão. A comemoração da indicação com um “Vai Corinthians” ecoando em Lisboa, onde vive, virou símbolo dessa mistura entre rigor profissional e identidade pessoal. E sobre a possibilidade de mencionar o Timão no palco do Dolby Theatre no caso de uma vitória, ele não hesita: “Com certeza!”. A promessa está feita.