Audiovisual

Quais são os planos da Netflix para o audiovisual brasileiro?

Em entrevista, executiva detalha patrocínios à Cinemateca e ao Retiro dos Artistas e a estreia do projeto A360

i 18 de agosto de 2026 - 6h02

"Vicentina Pede Desculpas", com direção, roteiro e história original de Gabriel Martins, é a nova aposta da Netflix (Créditos: Divulgação/Denise dos Santos/Netflix)

“Vicentina Pede Desculpas”, com direção, roteiro e história original de Gabriel Martins, é a nova aposta da Netflix (Créditos: Divulgação/Denise dos Santos/Netflix)

A Netflix completa 15 anos de atuação no Brasil em setembro, sendo dez deles dedicados à produção de conteúdo brasileiro. São mais de 1.000 títulos, entre licenciados e coproduções, realizados em parceria com mais de 80 produtoras do País.

Segundo a plataforma, foi R$ 1,5 bilhão investido nesses conteúdos entre 2018 e 2022 e outro R$ 1 bilhão entre 2023 e 2024, além de R$ 2 milhões na criação do Audiovisual 360 (A360), projeto voltado à formação profissional do setor.

Os aportes também incluem R$ 7,4 milhões, via Lei Rouanet, para a modernização e restauração do complexo arquitetônico da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e R$ 1,5 milhão em recursos próprios, destinados desde 2024 a um projeto de capacitação de atores e atrizes idosos residentes no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, para atuação no mercado de dublagem.

Investimentos na Cinemateca e Retiro dos Artistas

Segundo Mariana Polidorio, diretora sênior de políticas públicas da Netflix no Brasil, a Sociedade de Amigos da Cinemateca (SAC) procurou a empresa em meados de 2024, após tomar conhecimento do patrocínio da Netflix à Cinemateca Francesa, em Paris, para saber se a parceria poderia ser replicada no Brasil.

“Conhecemos o projeto, que já estava habilitado para captação, e entendemos que havia uma conexão clara com o nosso negócio. Cinema e streaming fazem parte do mesmo ecossistema e se retroalimentam”, afirma.

A executiva ressalta, porém, que os investimentos, anunciados em duas etapas (R$ 5 milhões em abril de 2025 e outros R$ 2,4 milhões nesse mês durante a celebração dos 80 anos da instituição), não implica participação na gestão ou na identidade da entidade: “Não é um ‘cinema da Netflix’ e não há naming rights. A Cinemateca é a Cinemateca e deve ser preservada. Nosso contrato prevê apenas o uso pontual dos espaços para eventos e pré-estreias”, disse.

Já no Retiro dos Artistas, na Zona Oeste da capital fluminense, o espaço terá um estúdio próprio de áudio e pós-produção, atualmente em obras, com previsão de conclusão até o fim do ano.

“Ele dobrará a capacidade de atendimento do projeto e servirá como fonte de receita própria para o Retiro, que poderá alugar o espaço para terceiros ou gravar podcasts, por exemplo. As vozes formadas lá não atendem apenas à Netflix, mas estão disponíveis para trabalhar com qualquer empresa do mercado”, afirma Mariana.

Vale lembrar que, no Brasil, já tramitam na Câmara dos Deputados projetos como o PL 2.462/2025 e o PL 4.041/2025, que tratam, respectivamente, de aspectos relacionados ao uso de inteligência artificial na dublagem e à proteção de profissionais da área.

“Nossa posição sobre o uso de IA é muito clara: ela não é o nosso produto final e não produzimos conteúdos 100% gerados por inteligência artificial. Entendemos a tecnologia estritamente como um recurso de apoio para otimizar processos e dar suporte ao trabalho criativo”, fala a executiva.

E completa: “A IA pode gerar ganhos de produtividade no planejamento de pré-produção, em testes de figurino ou na confecção ágil de storyboards, além de potencializar efeitos visuais na pós-produção. Entendemos as incertezas do setor, mas defendemos que a tecnologia deve ser um meio de eficiência, sempre sob a condução e com o elemento humano no centro”.

O que é o A360?

Dados do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro apontam 79 mil empregos diretos no setor. Já a Agência Nacional do Cinema (Ancine) registra que, em 2025, o audiovisual recebeu R$ 1,41 bilhão em desembolsos e adicionou R$ 32,7 bilhões à economia.

Como parte da estratégia de formação para o mercado, a Netflix inicia a primeira turma do Audiovisual 360 (A360), programa realizado em parceria com a STRIMA, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, patrocínio da Amazon MGM Studios e recursos via Lei Rouanet da Globoplay. A primeira aula será realizada nesta segunda-feira, 17, na Cinemateca.

São 200 vagas gratuitas, já preenchidas, divididas em oito trilhas técnicas, com formações que variam entre 360 horas-aula ao longo de 12 meses, em áreas como Fotografia, Roteiro e Assistência de Direção, e 120 horas-aula ao longo de seis meses, para turmas de Coordenação de Intimidade e Compliance.

“Identificamos demandas reais da indústria, como a necessidade de formar coordenadores de intimidade ou atualizar equipes em tecnologias de pós-produção. No projeto, destinamos até 60% das vagas para políticas afirmativas, voltadas a grupos sub-representados, e oferecemos bolsas de incentivo para imersões práticas supervisionadas em sets de filmagem. Também realizamos workshops de roteiro voltados especificamente para mulheres negras e indígenas”, disse a executiva.

“Queremos que a roda do audiovisual gire de maneira mais azeitada, com velocidade e escalabilidade. Internamente, nossa equipe criativa no Brasil já é formada por cerca de 90% de mulheres em cargos de liderança”, completa.

Onde estão as obras brasileiras?

O estudo Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil – 2025, da Ancine, mapeou 106 plataformas operando no País, reunindo mais de 138 mil títulos. As plataformas nacionais disponibilizavam 3.906 obras brasileiras, enquanto os serviços estrangeiros somavam 3.641 títulos nacionais, apesar de as plataformas brasileiras representarem apenas 38% do volume total de obras disponíveis nos catálogos analisados.

Nos catálogos das cinco maiores plataformas de streaming por assinatura (Amazon Prime Video, Netflix, HBO Max, Globoplay e Disney+) os títulos nacionais representavam 6,3% do total em 2025, ante 7% em 2024 e 8,5% em 2023. Considerando apenas as quatro plataformas estrangeiras do grupo, o índice cai para 2,7%. Na Netflix, especificamente, os 221 títulos brasileiros correspondiam a 2,8% de um catálogo de 7.790 obras.

A distribuição também é marcada pela concentração. Segundo a agência, mais de 3.700 obras nacionais estavam disponíveis em apenas uma ou duas plataformas em 2025. Além disso, somente 52,3% dos filmes lançados no Brasil entre 1995 e 2024 estavam presentes em serviços de vídeo sob demanda. Entre as 12.660 obras nacionais exibidas na TV por assinatura entre 2015 e 2024, apenas 27,5% chegaram ao streaming.

Para a Netflix, a distribuição digital pode ampliar a circulação de obras que têm espaço reduzido no circuito tradicional.

Um exemplo é O Agente Secreto, indicado a quatro Oscars, que, após quatro meses nos cinemas brasileiros, acumulou 2,4 milhões de espectadores, e nas duas primeiras semanas no catálogo da plataforma, superou 3,8 milhões de visualizações.

“Não enxergamos cinema e streaming como formatos excludentes ou concorrentes, mas como partes de um mesmo ecossistema. Filmes com boa performance nos cinemas tendem a repetir esse sucesso na plataforma, e nosso papel é ampliar o alcance dessas obras dentro e fora”, disse a porta-voz.

Além da produção de conteúdo, a Netflix mantém presença no calendário cultural brasileiro, com o patrocínio master da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e do Prêmio Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O vencedor tem o longa licenciado e distribuído globalmente pela plataforma.

Já como próxima aposta, está o lançamento da coprodução Vicentina Pede Desculpas, dirigida por Gabriel Martins (Marte Um) e selecionada para os festivais internacionais de Toronto e San Sebastián.

“Esse longa sintetiza muito do que buscamos no audiovisual brasileiro: apoiar a visão de criadores talentosos e dar alcance global a histórias com uma identidade fortemente nacional. Nosso compromisso é continuar investindo para que essas obras encontrem público tanto nas salas de exibição quanto nas casas de nossos assinantes em todo o mundo”, finaliza.