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A creator economy amadureceu

Em Austin, SXSW aponta creator economy mais estratégica, com parcerias longas, narrativa e papel central nas marcas

Ana Scavazza

Vice-presidente de Talent Management do Grupo Farol 23 de março de 2026 - 16h20

Austin tem um jeito curioso de lembrar a gente de que o marketing nunca fica parado. Basta caminhar algumas quadras entre os painéis do South by Southwest para perceber que muitas das certezas que tínhamos sobre influência, audiência e criadores já ficaram para trás. Em um painel que reuniu executivos de empresas como Yahoo, Crocs e Whoop, a sensação era clara: o marketing de influência que conhecemos até aqui já está ficando pequeno para o tamanho da creator economy.

Durante anos, o mercado tratou criadores como mídia. Planilhas de alcance, campanhas pontuais, posts patrocinados. Em Austin, a conversa parece ter outro tom. O que ouvi repetidamente foi algo mais profundo: marcas que querem criadores como parceiros de construção cultural. Não é apenas sobre audiência, é sobre narrativa. É sobre quem tem legitimidade para contar determinadas histórias para determinadas comunidades.

Para quem trabalha com talentos todos os dias, isso muda bastante coisa. Autenticidade deixou de ser uma palavra bonita em briefing e passou a ser um critério estratégico. Não basta escolher alguém com milhões de seguidores; é preciso entender se aquela pessoa já tem uma relação real com a marca, com o produto e com a conversa cultural ao redor dele. A diferença entre um conteúdo que funciona e um que parece publicidade disfarçada está exatamente aí.

Outro movimento que chamou atenção nos debates foi o tempo das relações. O modelo de campanhas rápidas, pensado apenas para gerar picos de visibilidade, começa a dar lugar a parcerias mais longas. Marcas querem acompanhar a jornada do criador, e, em alguns casos, até transformações pessoais ao longo do tempo. Isso muda a natureza da influência: ela deixa de ser apenas impacto e passa a ser acompanhamento.

Também percebi algo que, para mim, resume bem o espírito deste SXSW: creator marketing virou entretenimento. Muitas marcas estão produzindo séries, histórias e conteúdos que poderiam perfeitamente existir fora da lógica publicitária. O criador deixa de ser apenas um “porta-voz” e passa a ser protagonista de narrativas que disputam atenção no mesmo território de filmes, séries e cultura pop.

Talvez a reflexão mais importante para quem acompanha esse mercado no Brasil seja simples: a creator economy deixou de ser um capítulo do marketing digital. Ela virou parte central da estratégia de marca. Isso significa repensar relações de longo prazo, formatos criativos e, principalmente, o papel dos talentos dentro das histórias que as marcas querem contar.

Austin tem essa capacidade de nos lembrar que o futuro do marketing não nasce apenas de tecnologia. Muitas vezes ele nasce de algo muito mais humano: confiança, comunidade e pessoas que sabem conversar com outras pessoas. E, no fim das contas, é exatamente isso que os criadores sempre fizeram melhor do que qualquer algoritmo.