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Quanto mais avançam as máquinas, mais valioso é o julgamento humano

O jornalismo e o senso crítico humano são o filtro essencial contra a escala da inteligência artificial

Paulo Samia

CEO do UOL 19 de março de 2026 - 11h06

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil entender o que realmente está acontecendo. A inteligência artificial já consegue gerar textos, imagens e análises em questão de segundos, e qualquer pessoa com acesso à internet pode publicar sua interpretação sobre praticamente qualquer assunto. O resultado é um fluxo permanente de conteúdo circulando em velocidade inédita. Mas a abundância de informação não significa necessariamente mais conhecimento. Muitas vezes significa mais ruído, mais versões da realidade disputando atenção e mais dificuldade para separar fatos de narrativas.

Para quem trabalha com informação, essa mudança traz uma pergunta: “se a tecnologia consegue produzir conteúdo em escala, qual passa a ser o papel das pessoas?”. Essa foi uma das reflexões que mais me acompanharam durante o SXSW deste ano.

No festival, duas ideias apresentadas pela futurista Amy Webb ajudam a entender esse momento, o human augmentation e unlimited work. A primeira trata do uso de tecnologias que ampliam as capacidades humanas. Ferramentas de inteligência artificial já conseguem acelerar análises complexas, organizar grandes volumes de informação e executar tarefas que antes exigiam equipes inteiras. A segunda aponta para um cenário em que sistemas automatizados operam continuamente, sem pausa ou fadiga. Juntas, essas duas tendências apontam para uma transformação profunda na forma como pensamos o trabalho e as organizações.

Durante muito tempo, empresas foram estruturadas para organizar pessoas em torno de tarefas. Crescer significava contratar mais profissionais, expandir equipes e distribuir responsabilidades. Agora, cada vez mais, líderes precisarão organizar ambientes em que pessoas e máquinas trabalham juntas.

Mas essa mudança traz uma pergunta fundamental: “quem garante que as máquinas estejam alinhadas com os valores da organização?”. À medida que sistemas automatizados assumem tarefas operacionais e ampliam a capacidade de execução das

empresas, cresce também a importância daquilo que é essencialmente humano. Capacidade de julgamento, senso crítico, responsabilidade sobre decisões e alinhamento com princípios institucionais passam a ser ativos ainda mais valiosos dentro das organizações.

Produzir informação confiável sempre exigiu algo que vai muito além da execução técnica. Exige interpretação, verificação rigorosa e responsabilidade editorial. A tecnologia pode ampliar a capacidade de produzir conteúdo, organizar dados e tornar processos mais eficientes, mas só pessoas conseguem garantir que essa produção esteja alinhada com valores e com a missão de ajudar a sociedade a compreender o mundo. Em um ambiente onde diferentes versões da realidade circulam em grande escala, o papel do jornalismo não é apenas informar, mas oferecer contexto, separar fatos de especulações e ajudar o público a entender o que realmente importa.

É por isso que acredito que, no futuro do trabalho, o papel das pessoas não diminui, ele se transforma. Se máquinas passam a executar processos e ampliar a capacidade operacional das organizações, cabe às pessoas garantir direção, propósito e critérios de decisão. O diferencial das empresas não estará apenas na tecnologia que utilizam, mas na qualidade do julgamento humano que orienta essa tecnologia.

Essa reflexão também ajuda a explicar por que a capacidade de se reinventar continua sendo tão importante para as empresas. Ao longo de seus 30 anos, o UOL atravessou diferentes fases da transformação digital. Vimos o nascimento da internet comercial no Brasil, acompanhamos o crescimento das redes sociais, a explosão do vídeo online e agora vivemos o avanço acelerado da inteligência artificial. Em muitos momentos, foi preciso abandonar modelos que deixaram de funcionar e abrir espaço para novas formas de produzir conteúdo e se relacionar com as audiências.

Esse processo faz parte da lógica da inovação e muitas vezes é descrito como destruição criativa. Organizações que permanecem relevantes por décadas não são aquelas que preservam tudo o que construíram, mas aquelas que conseguem evoluir, questionar suas próprias estruturas e abrir espaço para novas ideias. E esse movimento não acontece apenas por causa da tecnologia. Ele depende principalmente de pessoas capazes de interpretar mudanças, questionar caminhos estabelecidos e construir novos modelos.

Se o futuro se tornou mais complexo e imprevisível, o papel do jornalismo não diminui. Pelo contrário. Em um mundo onde a produção de conteúdo cresce exponencialmente,

a missão de ajudar as pessoas a compreender o que está acontecendo se torna ainda mais necessária.