Opinião WW

A ascensão dos showrunners independentes

Antes, era preciso um conglomerado de mídia para criar um ecossistema. Hoje, criadores são seu próprio conglomerado

Luiza Maggessi

VP da PlayAction 29 de janeiro de 2026 - 8h02

Uma mudança está redesenhando o cenário dos criadores de conteúdo. Já não falamos apenas de influenciadores que publicam em múltiplas plataformas, e sim de criadores que se tornaram verdadeiros ecossistemas de mídia. Nomes que pensam e operam com a mentalidade de showrunners, figuras que comandam empresas de entretenimento a partir de uma visão criativa central.

A diferença pode parecer sutil, mas é estrutural. Um espaço de mídia é o lugar onde você distribui conteúdo. Um ecossistema de mídia é onde você cria valor interconectado, combinando formatos, produtos e experiências que se retroalimentam continuamente.

showrunner é o executivo criativo por trás de uma série de TV. É quem define o tom, conduz equipes e toma decisões de negócio. Essa lógica passou a inspirar o criador contemporâneo, que não é mais apenas o rosto de um canal, mas a mente por trás de um universo narrativo próprio.

Exemplos globais: a lógica do ecossistema em ação

Emma Chamberlain é uma das criadoras que melhor traduz essa nova mentalidade. Começou com vlogs no YouTube e construiu um império que conecta Chamberlain Coffee, podcast, moda e uma estética editorial que molda toda uma geração. Cada vertical alimenta as outras: o podcast gera recortes para TikTok e Shorts, o café aparece organicamente nos vídeos, e o estilo pessoal vira produto. Um ciclo de valor contínuo e interdependente.

No mesmo sentido, MrBeast levou o conceito a uma escala industrial. Saiu da produção de vídeos no YouTube para comandar linhas de produtos, aplicativos, canais em múltiplos idiomas e uma produtora com centenas de funcionários. Nada de pensar só na publi. Tudo faz parte de um mesmo universo narrativo, pensado estrategicamente como um ecossistema.

O movimento no Brasil

Quando olhamos para o Brasil, o conceito ganha contornos próprios e criadores que adaptaram essa mentalidade à sua realidade e audiência. Casimiro é talvez o caso mais evidente: mais que um streamer, ele construiu uma rede de entretenimento que vai de transmissões a produtos e canais, com sua persona funcionando como a cola que integra tudo.

Whindersson Nunes também representa essa expansão. Ele levou sua presença além do YouTube, explorando boxe, música e projetos audiovisuais autorais. Cada frente retroalimenta a outra. O ringue gera conteúdo, o conteúdo reforça sua relevância nos palcos e vice-versa.

Rafa Tuma é outro exemplo dessa transição estratégica. Adaptou animações e ilustrações para dialogar com o público de vídeos curtos das redes, ampliou rapidamente seus perfis e transformou o que antes era um estúdio em uma marca pessoal criativa. Hoje, além de manter seu estilo de humor leve, lançou um livro de colorir líder em vendas e uma série de animação própria, expandindo sua criação para novos formatos.

Bianca Andrade, a Boca Rosa, construiu um verdadeiro império da beleza partindo de tutoriais no YouTube. A Boca Rosa Beauty nasceu como extensão natural de seu conteúdo e, hoje, tudo em seu ecossistema é integrado. Dos produtos às parcerias, passando por palestras, cursos e até o patrocínio de um time de vôlei. Cada movimento é pensado para fortalecer seu próprio universo de marca.

Mas, afinal, quando acontece essa virada de um espaço de mídia para um ecossistema? 

Ela acontece no momento em que ele começa a criar super propriedades intelectuais. Ou seja, quando cria seus universos narrativos próprios e começa a deixar de apenas reagir a tendências. Além de desenvolver verticais que se complementam e construir canais diretos com a audiência, que podem ser via Patreon, Substack ou aplicativos próprios. Outro ponto é quando acontece a transformação de uma operação individual em um estúdio de produção completo. 

Antes, era preciso um conglomerado de mídia para criar um ecossistema. Hoje, visão e estratégia bastam para que um criador se torne o próprio conglomerado.

No entanto, criar um ecossistema não é um movimento trivial. Exige visão de longo prazo, capital, estrutura e, principalmente, maturidade para gerir pessoas e processos sem perder a autenticidade. Muitos criadores tropeçam nesse ponto: dominam o conteúdo, mas subestimam o que vem junto com o pensamento empresarial estruturado.

Estamos vendo nascer uma nova categoria de empresa: ágil, autêntica e sustentável. Criadores-showrunners que não disputam apenas atenção, mas também, protagonismo cultural.

No fim das contas, a pergunta deixou de ser “em quantas plataformas você está?”. A questão agora é Qual valor você gera e como você conecta isso com todos os produtos próprios?