A ascensão dos showrunners independentes
Antes, era preciso um conglomerado de mídia para criar um ecossistema. Hoje, criadores são seu próprio conglomerado
Uma mudança está redesenhando o cenário dos criadores de conteúdo. Já não falamos apenas de influenciadores que publicam em múltiplas plataformas, e sim de criadores que se tornaram verdadeiros ecossistemas de mídia. Nomes que pensam e operam com a mentalidade de showrunners, figuras que comandam empresas de entretenimento a partir de uma visão criativa central.
A diferença pode parecer sutil, mas é estrutural. Um espaço de mídia é o lugar onde você distribui conteúdo. Um ecossistema de mídia é onde você cria valor interconectado, combinando formatos, produtos e experiências que se retroalimentam continuamente.
O showrunner é o executivo criativo por trás de uma série de TV. É quem define o tom, conduz equipes e toma decisões de negócio. Essa lógica passou a inspirar o criador contemporâneo, que não é mais apenas o rosto de um canal, mas a mente por trás de um universo narrativo próprio.
Exemplos globais: a lógica do ecossistema em ação
Emma Chamberlain é uma das criadoras que melhor traduz essa nova mentalidade. Começou com vlogs no YouTube e construiu um império que conecta Chamberlain Coffee, podcast, moda e uma estética editorial que molda toda uma geração. Cada vertical alimenta as outras: o podcast gera recortes para TikTok e Shorts, o café aparece organicamente nos vídeos, e o estilo pessoal vira produto. Um ciclo de valor contínuo e interdependente.
No mesmo sentido, MrBeast levou o conceito a uma escala industrial. Saiu da produção de vídeos no YouTube para comandar linhas de produtos, aplicativos, canais em múltiplos idiomas e uma produtora com centenas de funcionários. Nada de pensar só na publi. Tudo faz parte de um mesmo universo narrativo, pensado estrategicamente como um ecossistema.
O movimento no Brasil
Quando olhamos para o Brasil, o conceito ganha contornos próprios e criadores que adaptaram essa mentalidade à sua realidade e audiência. Casimiro é talvez o caso mais evidente: mais que um streamer, ele construiu uma rede de entretenimento que vai de transmissões a produtos e canais, com sua persona funcionando como a cola que integra tudo.
Whindersson Nunes também representa essa expansão. Ele levou sua presença além do YouTube, explorando boxe, música e projetos audiovisuais autorais. Cada frente retroalimenta a outra. O ringue gera conteúdo, o conteúdo reforça sua relevância nos palcos e vice-versa.
Rafa Tuma é outro exemplo dessa transição estratégica. Adaptou animações e ilustrações para dialogar com o público de vídeos curtos das redes, ampliou rapidamente seus perfis e transformou o que antes era um estúdio em uma marca pessoal criativa. Hoje, além de manter seu estilo de humor leve, lançou um livro de colorir líder em vendas e uma série de animação própria, expandindo sua criação para novos formatos.
Bianca Andrade, a Boca Rosa, construiu um verdadeiro império da beleza partindo de tutoriais no YouTube. A Boca Rosa Beauty nasceu como extensão natural de seu conteúdo e, hoje, tudo em seu ecossistema é integrado. Dos produtos às parcerias, passando por palestras, cursos e até o patrocínio de um time de vôlei. Cada movimento é pensado para fortalecer seu próprio universo de marca.
Mas, afinal, quando acontece essa virada de um espaço de mídia para um ecossistema?
Ela acontece no momento em que ele começa a criar super propriedades intelectuais. Ou seja, quando cria seus universos narrativos próprios e começa a deixar de apenas reagir a tendências. Além de desenvolver verticais que se complementam e construir canais diretos com a audiência, que podem ser via Patreon, Substack ou aplicativos próprios. Outro ponto é quando acontece a transformação de uma operação individual em um estúdio de produção completo.
Antes, era preciso um conglomerado de mídia para criar um ecossistema. Hoje, visão e estratégia bastam para que um criador se torne o próprio conglomerado.
No entanto, criar um ecossistema não é um movimento trivial. Exige visão de longo prazo, capital, estrutura e, principalmente, maturidade para gerir pessoas e processos sem perder a autenticidade. Muitos criadores tropeçam nesse ponto: dominam o conteúdo, mas subestimam o que vem junto com o pensamento empresarial estruturado.
Estamos vendo nascer uma nova categoria de empresa: ágil, autêntica e sustentável. Criadores-showrunners que não disputam apenas atenção, mas também, protagonismo cultural.
No fim das contas, a pergunta deixou de ser “em quantas plataformas você está?”. A questão agora é Qual valor você gera e como você conecta isso com todos os produtos próprios?