A subjetividade narcisista e o século da solidão
O debate que precisa ser feito não é sobre moderação de uso, mas sobre o tipo de humanidade que queremos preservar em um mundo governado por algoritmo

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As redes sociais não estão apenas mudando a forma como nos comunicamos. Elas deixaram de ser somente ferramentas de comunicação e se tornaram arenas em que identidades são construídas, exibidas e validadas em tempo real.
A filósofa brasileira Marilena Chauí descreve essa transformação como uma mutação civilizacional que produz um tipo de sujeito ao mesmo tempo narcisista e profundamente vulnerável, marcado por insegurança, ansiedade e depressão. Paralelamente, a economista britânica Noreena Hertz, em seu livro “O século da solidão”, denuncia como o nosso tempo é marcado por uma crise paradoxal: apesar da hiperconectividade digital, enfrentamos um aumento dramático da solidão e da desconexão social.
No diagnóstico da filósofa, existir nas redes sociais passou a ser sinônimo de ser visto e reconhecido. A experiência de si depende radicalmente do olhar do outro, quem não aparece, não existe. Plataformas como Instagram e TikTok transformam curtidas, compartilhamentos e seguidores em métricas públicas de valor pessoal, deslocando a autoestima para indicadores externos e voláteis.
Essa dinâmica produz um sujeito narcisista, que se volta obsessivamente para a própria imagem, mas cuja existência depende da aprovação alheia. Longe de fortalecer o indivíduo, essa lógica o torna fragilizado, inseguro e vulnerável a um ciclo de ansiedade que alterna entre a euforia do engajamento e o vazio do apagamento.
Hertz revela ainda que vivemos um “século da solidão” onde, mesmo conectados de forma constante, as pessoas relatam um esvaziamento dos laços significativos. Ela mostra como o desmantelamento das infraestruturas sociais tradicionais, como sindicatos, igrejas e associações comunitárias, somado à precarização do trabalho e às políticas neoliberais, cria um deserto relacional.
As redes digitais emergem nesse cenário como espaços de conexão rápida e superficial, onde vínculos frágeis e algoritmos comandam as interações. Assim, o casal de perspectivas evidencia um paradoxo: nunca o “eu” foi tão exposto publicamente e nunca houve tamanha carência de pertencimento real e acolhimento.
Essa solidão digital não é simplesmente uma tragédia humana, mas uma oportunidade de mercado para o capitalismo de plataforma. Influencers, coaches motivacionais e os chamados “empreendedores de si” aparecem como guias em meio à insegurança, oferecendo modelos de autenticidade, sucesso e autonomia. Mas são modelos que exigem conformidade, consumo permanente e desempenho constante.
O sofrimento é privatizado e convertido em um produto, fortalecendo a lógica econômica que captura a atenção, o afeto e o desejo do sujeito narcisista-depressivo. Hertz denuncia também o surgimento de um ecossistema de empresas que lucram com a solidão, desde aplicativos que simulam companhias até serviços que monetizam cada interação social.
No plano político, a fragmentação e a solidão têm consequências graves para a democracia. Chauí destaca que o Brasil permanece profundamente autoritário e hierarquizado e que as redes sociais, longe de promoverem uma esfera pública democrática, reforçam bolhas, disputas identitárias e guerras simbólicas. O resultado são microgrupos isolados, cada um lutando por visibilidade, mas incapazes de construir um projeto coletivo universal baseado em direitos humanos.
Hertz complementa esse diagnóstico, revelando como a solidão crônica alimenta ressentimentos que tornam os indivíduos mais suscetíveis a discursos de ódio, extremismo e teorias conspiratórias, que oferecem identidade e inimigos claros em um mundo cada vez mais fragmentado.
É essa polarização que afeta drasticamente o cenário político, um alto risco em anos de eleição. Para esse enfrentamento, precisamos pensar em ações mais conscientes e formadoras de opinião.
Diante disso, superar essa simbiose entre narcisismo e solidão exige políticas públicas e culturais que ultrapassem o nível do “uso consciente” das redes ou receitas individuais para o equilíbrio da saúde mental. O uso excessivo deve ser comparado à bebida alcoólica e ao cigarro. O desafio, portanto, é transformar esse mal no uso responsável da informação e do aparelho.
É chato falar de regulação, mas a verdade é que as plataformas faturam por meio de anúncios a nossa atenção. Somado a isso, precisamos incentivar a reconstrução das infraestruturas do convívio social. Isso envolve fortalecer espaços coletivos de encontro, como escolas, centros culturais, associações de bairro, e fomentar práticas de cuidado que não reduzam o sofrimento à responsabilidade pessoal.
Pensar nosso tempo a partir de Marilena Chauí e Noreena Hertz é encarar uma verdade incômoda: a crise que atravessamos não é de comportamento, é de estrutura. Não se trata apenas de como usamos as redes, mas do modelo de sociedade que elas ajudaram a consolidar.
A comunicação deixou de ser uma ponte para se tornar vitrine. E uma sociedade que se organiza pela exibição, e não pelo vínculo, cedo ou tarde colapsa emocionalmente, politicamente e socialmente. O debate que precisa ser feito não é sobre “moderação de uso”, mas sobre o tipo de humanidade que queremos preservar em um mundo governado por algoritmos.