O banco de reservas e a arte de torcer
Se o colega fizer o gol, que a nossa celebração seja tão genuína quanto a de uma criança vendo seu time ser campeão
Recentemente, a vida pessoal me obrigou a uma daquelas pausas forçadas. Meu filho se machucou – nada grave, felizmente, a recuperação segue muito bem, obrigada. Mas a consequência imediata foi o afastamento dos campos de futebol.
Bom, o universo da bola nunca foi exatamente a minha praia, mas a dedicação e a paixão dele me aproximaram desse mundo. E o roteiro foi duro: ele teve que parar de jogar justamente na fase final do campeonato, no ano em que o time estava voando.
Houve a decepção, a reclamação, a tentativa frustrada de negociar com a médica… mas não teve jeito. Ele ficou fora. O time? O time chegou à final. E foi aí que veio a surpresa que amoleceu meu coração de mãe e desafiou minha mente de executiva: no dia do jogo decisivo, ele pediu para ir. Não para jogar, mas para torcer.
Você deve estar se perguntando: “Maia, essa coluna virou um diário de maternidade?”
Não exatamente. Essa situação ilustra com perfeição duas “desconstruções” urgentes para a nossa vida corporativa: a forma como lidamos com a frustração de sair do jogo e a rara habilidade de torcer genuinamente pelo outro.
A carreira definitivamente não é uma linha reta ascendente. Vão existir os bumps in the road. E, às vezes, não estaremos com a bola no pé. Vamos para o banco de reservas. A pergunta provocativa que deixo aqui é: quando a pausa forçada acontece, qual é o seu plano?
Esses momentos de “desaceleração” ou de despriorização de um projeto não são, necessariamente, atestados de incompetência. Podem ser o combustível para a tal “inquietação” que tanto valorizo.
Lembro-me de um período em que meus projetos não estavam no centro das prioridades da empresa. A frustração bateu, claro. Mas, em vez de paralisar, recorri à curiosidade. Decidi olhar para um incômodo latente: a escassez feminina em tecnologia. Não era novidade, mas era urgente.
Fui conversar com mulheres incríveis, conectei-me com engenheiras do Google em Belo Horizonte, com a Iana Chan, da PrograMaria e tantas outras mulheres incríveis. Entendi que o problema aparece bem cedo: meninas desistem de acreditar que STEM (sigla para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é para elas ainda no ensino fundamental.
Foi desse “banco de reservas” profissional que surgiu a energia para trazer ao Brasil o “Change the Game”, um projeto lindo do Google Play que estimulava meninas a criarem seus próprios jogos. Meu momento de frustração virou a chance de uma nova descoberta, de reenergizar e mover outros escopos.
E isso nos leva ao segundo ponto: o espírito de torcida.
O que para o meu filho foi um gesto óbvio — ir ao campo vibrar pelos amigos — é raríssimo no ambiente corporativo. Não sejamos ingênuos: existe competição, e o jogo corporativo é difícil. Mas quantas vezes ajudamos a construir a jogada, fazemos o passe para o gol, mas não estamos lá para a foto final? E por que isso nos impede de vibrar com a vitória do time?
Fiz esse exercício honesto: parei para pensar quantas vezes celebrei a conquista alheia em projetos que iniciei, mas não concluí. E, principalmente, quando eu poderia ter feito mais.
Fica, então, o convite para que a gente exercite essa resiliência ativa. Se for para o banco de reservas, que seja para estudar uma nova tática e não para amargar a derrota. E se o colega fizer o gol, que a nossa celebração seja tão genuína quanto a de uma criança vendo seu time ser campeão.
Para quem será sua próxima torcida? E o que você fará no seu próprio banco de reservas?