Opinião WW

Produtividade em escala, originalidade em risco

Tratar a IA como substituta da criação, e não como suporte ao processo criativo, é um caminho curto para a perda de diferenciação

Helena Prado

Presidente executiva da Pine 18 de fevereiro de 2026 - 10h44

(Crédito: Shutterstock)

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A proliferação da inteligência artificial generativa tem intensificado o debate sobre o equilíbrio entre ganhos de desempenho e os impactos dessa busca sobre a criatividade humana.  

À medida que processos de trabalho são profundamente reconfigurados (especialmente em áreas como marketing, comunicação, conteúdo e PR), o que se observa no dia a dia de agências e departamentos corporativos é uma discrepância clara. De um lado, a performance avança em níveis e velocidade inéditos. De outro, os efeitos sobre o pensamento criativo e a autonomia profissional são cada vez mais evidentes. 

Os estudos acadêmicos sobre o tema seguem uma linha consistente. Em geral, apontam ganhos de produtividade que chegam a 40% com o uso da IA generativa, ao mesmo tempo em que revelam custos cognitivos e afetivos.  

Ao concentrar grandes volumes de informação em sistemas de acesso instantâneo, a tecnologia tende a reduzir a diversidade de ideias, a precisão metacognitiva e até a motivação para executar determinadas tarefas. É um alerta importante para carreiras que dependem diretamente de repertório, senso crítico e originalidade. 

Mais do que um efeito pontual, os impactos da cooperação humano-IA já se configuram como um dilema social. A eficiência individual ampliada muitas vezes ocorre à custa da novidade coletiva e da autonomia profissional.  

Em ambientes criativos, isso se traduz em entregas mais rápidas e “corretas”, porém cada vez mais parecidas entre si. Lidar com essa tensão exigirá novos modelos de governança, especialmente em áreas como marketing e comunicação, onde o valor está justamente no desvio, na interpretação e na construção de significado. 

O paradoxo entre performance e cognição é um tema que já extrapolou a academia e ganhou espaço no debate público, como quando viralizaram os estudos do MIT sobre o impacto de diferentes formas de apoio digital em nosso desempenho cognitivo.  

Mas os dilemas não se encerram por aí. Há outros fatores preocupantes envolvidos quando olhamos para os efeitos de “convergência criativa” provocados pela IA. Pesquisas indicam que o uso de GenAI em processos de ideação pode gerar resultados avaliados como mais criativos no nível individual. No entanto, quando observado o conjunto das produções, o efeito é inverso, com ideias muito homogêneas entre si.  

Em outras palavras, a otimização individual pode gerar uma perda coletiva de originalidade, um risco estrutural para campos como branding, estratégia, storytelling e criação de conteúdo. 

É inegável que as tecnologias generativas impactam positivamente a qualidade e a velocidade das entregas. Em um mercado pressionado por performance e eficiência, especialmente para profissionais menos experientes, essas ferramentas ajudam a reduzir assimetrias e elevar o nível médio do trabalho. O problema não está no uso da tecnologia em si, mas na forma como ela passa a orientar decisões criativas. 

A eficiência aparente esconde uma tensão relevante entre ganhos objetivos de desempenho e perdas subjetivas relacionadas à autonomia, ao senso de autoria e à capacidade criativa. O benefício imediato pode comprometer, no médio e longo prazo, a inovação e a diferenciação, ativos centrais para marcas, profissionais e empresas que competem por atenção e relevância. 

Outro ponto crítico é que os efeitos da GenAI não são homogêneos. Eles variam de acordo com fatores individuais e contextuais. Profissionais mais habilidosos e experientes tendem a extrair mais valor criativo da IA. Por outro lado, observa-se o efeito de “skill-compression”, no qual a tecnologia eleva rapidamente a performance de profissionais menos experientes, mas pode limitar o desenvolvimento de expertise profunda e pensamento estratégico ao longo do tempo. 

A capacidade de refletir sobre o próprio pensamento, e não apenas executar, é o que transforma o output da IA em um recurso cognitivo real, e não em uma simples substituição de esforço. Esse é um ponto que deveria estar no centro das decisões de lideranças de marketing e comunicação. Tratar a IA como substituta da criação, e não como suporte ao processo criativo, é um caminho curto para a perda de diferenciação em mercados já saturados. 

Ainda estamos no início dessa jornada. Muito ainda será descoberto sobre os efeitos de longo prazo da IA na criatividade e na produtividade profissional. Justamente por isso, torna-se essencial investir em um design de trabalho que direcione o uso da tecnologia de forma consciente, buscando um equilíbrio sustentável entre eficiência e inovação genuína.  

O desafio não é automatizar mais, mas construir uma lógica de inteligência aumentada que preserve aquilo que torna o trabalho criativo humano relevante.