Entre tendências e propósito: reflexões de quem lidera hoje
Por que liderar deixou de ser apenas acompanhar movimentos e passou a exigir uma capacidade mais rara

(Crédito: Shutterstock)
Estamos em pleno início de ano, período em que as redes sociais se enchem de listas de destinos imperdíveis, tendências de comportamento, aplicativos da vez, métodos milagrosos de produtividade e novas promessas de futuro.
Basta um rápido scroll no Instagram para perceber como o “hype das férias” se reinventa a cada semana, ora é um lugar, ora é um estilo de vida, ora é uma nova forma de trabalhar, consumir ou se cuidar. Esse movimento quase constante de novidades diz muito sobre o nosso tempo e, principalmente, sobre o tipo de decisões que somos chamados a tomar como líderes.
Vivemos uma era em que quase tudo acontece em alta velocidade. Tendências surgem, ganham tração e desaparecem antes mesmo de serem plenamente compreendidas. Na tecnologia, no branding e na cultura, o que ontem parecia essencial hoje já soa ultrapassado.
Nesse cenário, liderar deixou de ser apenas acompanhar movimentos e passou a exigir uma capacidade mais rara: discernir o que permanece quando o entusiasmo inicial se dissipa.
O hype tem seu papel. Ele sinaliza transformações, acelera debates e provoca experimentações. Mas quando a visibilidade se torna o principal critério de decisão, o risco é investir energia em narrativas que não se sustentam no tempo. Liderar, hoje, exige um exercício constante de escolha: o que é estrutural e o que é circunstancial? O que merece investimento contínuo e o que pertence apenas ao ciclo da novidade?
É nesse contexto que o começo do ano ganha um significado particular. Não como momento de grandes planejamentos, esses já foram feitos, mas como fase de execução. É quando as estratégias começam a ser testadas pela realidade e as decisões revelam se foram guiadas por propósito ou apenas pela pressão do momento.
Para o Grupo L’Oréal no Brasil, atuar com responsabilidade corporativa em um ambiente tão acelerado passa justamente por essa leitura. Propósito não é tendência, e impacto não se mede pela velocidade da adesão, mas pela consistência ao longo do tempo. Compromissos com sustentabilidade, diversidade e inovação responsável só fazem sentido quando atravessam ciclos, mesmo depois que deixam de ocupar o centro do debate público.
No branding, essa reflexão é essencial. Marcas são constantemente estimuladas a reagir ao que está em alta, novas linguagens, causas emergentes, formatos virais. Mas o consumidor percebe quando o discurso não encontra correspondência na prática. É por isso que as “causas de marca” ganham um papel cada vez mais central: elas não são campanhas pontuais, mas compromissos de longo prazo com temas sociais relevantes.
Responsabilidade corporativa não é ocupar espaço na conversa do momento, mas sustentar escolhas que se traduzem em cultura, processos e decisões reais. Para nós, nossas marcas ampliam continuamente seu impacto social, alcançando mais de 100 mil pessoas por ano, com a ambição de chegar a mais de 137 mil em 2026. Iniciativas como o Stand Up, de L’Oréal Paris, no combate ao assédio nas ruas, os projetos da La Roche-Posay na prevenção ao câncer de pele e o lançamento do programa I’m Fine, da Lancôme, voltado à saúde mental, mostram como causas bem estruturadas se traduzem em ações concretas, capazes de gerar transformação real.
O mesmo vale para a tecnologia. Ferramentas e plataformas se multiplicam prometendo eficiência, escala e personalização. A pergunta-chave para a liderança não é “isso é novo?”, mas “isso é relevante para o nosso propósito e para as pessoas que impactamos?”. Inovação responsável exige critério, não adesão automática.
Liderar em ciclos cada vez mais curtos, portanto, não é apenas ser ágil. É saber dizer não. É proteger foco, coerência e visão de longo prazo. É reconhecer que responsabilidade corporativa implica resistir ao movimento fácil e investir no que constrói valor social, ambiental e humano de forma duradoura.
No fim, o que permanece não é o hype, mas a clareza de propósito que orienta decisões mesmo quando o ruído é alto. Em um mundo que se move rápido, a verdadeira liderança está em saber exatamente por que, para quem e para que se escolhe seguir em frente.