Opinião WW

Como está o seu horizonte?

Ou como ambientes de trabalho excessivamente fechados e sem verde podem contribuir para a perda da saúde mental

Camila Valverde

Diretora superintendente da Fundação ArcelorMittal 30 de janeiro de 2026 - 8h02

(Crédito: Unsplash)

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Sempre fui curiosa sobre o horizonte. O conceito clássico o define como a linha em que a terra ou o mar parecem unir-se ao céu, limitando o campo visual de uma pessoa. Curiosa também é a sensação agradável de estar diante dele: a imensidão traz um sentimento de liberdade e, ao mesmo tempo, promove introspecção.

É como se a contemplação provocasse, simultaneamente, um zoom in e um zoom out em nossas vidas. Este artigo é um convite a refletir sobre a nossa convivência com o horizonte, especialmente no mundo corporativo e em relação à nossa saúde mental. 

Tive o privilégio de morar em uma cidade litorânea durante toda a minha infância e juventude, e lá o horizonte se apresentou para mim como uma linha entre céu e mar. Ainda jovem, aventurei-me a pintar quadros e procurei aprender sobre perspectiva com um grande amigo arquiteto, que me deu uma dica inesquecível: o horizonte representa a altura do seu olhar no espaço. Meu velho hábito de transformar a realidade em metáfora da existência humana ouviu essa explicação e voou longe. Pensei: cada um tem o seu horizonte.

Trago primeiro um olhar metafórico sobre nossa atuação profissional no mundo corporativo. Vejamos o horizonte como perspectiva de futuro: a extensão ou limite de ideias, conhecimentos ou experiências de uma pessoa. Do ponto de vista físico, quando você está em pé no chão e seus olhos estão, digamos, a 1,60 metros do solo, a linha do horizonte aparece nesse nível. Quando você sobe ao último andar de um prédio de 40 andares, seus olhos passam a estar a cerca de 120 metros do chão.

O plano horizontal que sai dos seus olhos continua sendo o mesmo em relação a você, mas o horizonte “sobe junto”, ampliando o campo de visão até onde ele se projeta.

Profissionalmente, a metáfora é clara: nossa perspectiva de futuro, conhecimento ou experiência tende a “subir junto” e a se ampliar à medida que evoluímos. E aqui, desenvolvimento profissional nem sempre é sinônimo de ascensão de cargo. Muitas vezes, é sobre compreender o todo, algo relacionado ao quanto estamos abertos à reflexão, à mudança e à adaptação em um mundo acelerado e mutante. 

Se olharmos pelo viés não metafórico, mas real, veremos que enxergar longe, ter amplitude visual ou observar a natureza aberta afeta o comportamento humano, as emoções e a capacidade de sonhar. Ver o horizonte amplia nossas possibilidades internas. A Teoria da Restauração da Atenção, de Rachel Kaplan e Stephen Kaplan (1989), já demonstrava que a exposição a ambientes naturais pode restaurar a capacidade de concentração e reduzir o estresse.

No Brasil, a Universidade de São Paulo tem vários estudos que demostram o quanto corpo e mente precisam de paisagens abertas para se manterem saudáveis, trazendo a interdisciplinaridade entre Arquitetura e Urbanismo e Psicologia Ambiental. Essa reflexão nos leva a questionar como ambientes de trabalho excessivamente fechados e sem verde podem contribuir para a perda da saúde mental.

A visão metafórica do horizonte como perspectiva de futuro e limite de ideias dialoga fortemente com a visão do horizonte real, principalmente quando avaliamos o impacto da sua ausência no ambiente corporativo — ausência de janelas, de paisagens, de luz natural — e os prejuízos que isso causa ao bem-estar. Este ano, a campanha Janeiro Branco traz como tema “Paz. Equilíbrio. Saúde mental”, reforçando a crença de que, quando a mente encontra paz, tudo ao redor respira melhor: instituições, territórios e relações sociais.

A frase conhecida que tantas vezes direcionamos no imperativo a nós mesmos ou aos outros, “amplie seus horizontes”, fala diretamente sobre visão de mundo e comportamentos. Mas, antes de alcançar essa expansão desejada, é necessário olhar atentamente para o horizonte atual, tanto interno quanto físico. Afinal, é a partir dele que podemos compreender onde estamos e, então decidir aonde queremos chegar.

Neste janeiro, fica o convite: como está o seu horizonte?