Fadiga de acesso: o cansaço invisível imposto a PCDs
Pessoas com deficiência estão cansadas, mas não podem carregar essa pauta sozinhas

(Crédito: Shutterstock)
Muito antes de chegar ao local de trabalho, a uma entrevista de emprego, a um evento social ou até mesmo a um momento de lazer, muitas pessoas com deficiência já estão exaustas. Esse cansaço não nasce da deficiência em si, mas da necessidade constante de enfrentar um mundo que insiste em não ser acessível. Esse fenômeno tem nome: fadiga de acesso.
O conceito foi formalizado pela pesquisadora Annika M. Konrad e vem sendo amplamente citado em pesquisas sobre trabalho, tecnologia e inclusão. Segundo a definição, a fadiga de acesso não é causada pela deficiência em si, mas pela fricção contínua entre o indivíduo e ambientes não acessíveis.
A falta de acessibilidade culpabiliza a pessoa com deficiência ou neurodivergente e cansa, atrasa e a culpa do atraso ainda é nossa.
A pesquisa “Radar da Inclusão 2025”, que analisa a empregabilidade de pessoas com deficiência (PcD) ou neurodivergentes no Brasil, revela números alarmantes. Segundo o estudo, 56% dos profissionais com deficiência ou neurodivergentes que estão empregados já vivenciaram situações de falta de acessibilidade que prejudicaram seu desempenho e bem-estar no trabalho.
Os impactos são profundos: 41% afirmam já ter desistido de ir a algum lugar por dificuldades de locomoção na cidade; 34% deixaram de buscar emprego ou formação ao preverem desafios de mobilidade ou acesso; e 26% perderam compromissos profissionais devido a barreiras de acessibilidade no trajeto.
Esses dados revelam uma realidade: oportunidades deixam de existir não por falta de competência, mas por ausência de condições mínimas de acesso.
A pesquisa também mostra que as barreiras não são apenas arquitetônicas: 36% das pessoas entrevistadas relataram atrasos causados por problemas de acessibilidade no trajeto, situações completamente alheias à sua capacidade profissional. Além disso, 37% afirmaram ter se sentido tristes ou deprimidas após enfrentar dificuldades de acesso no deslocamento diário.
Não por acaso, 77% dos participantes acreditam que as empresas brasileiras não estão preparadas para receber pessoas com deficiência. Ainda assim, 9 em cada 10 afirmam que se identificariam como PcD ou neurodivergente no currículo.
Entre as que optaram por não se identificar, 43% apontaram o medo do capacitismo como principal motivo. Além disso, 25% dos respondentes ocupados afirmam ter dificuldade de circular entre os espaços internos da empresa e metade tem dificuldade de participar de confraternizações ou momentos de integração com colegas.
Esse conjunto de experiências traduz um sentimento coletivo vivido por pessoas com deficiência: o desgaste contínuo de existir em ambientes que não nos consideram.
Esse cansaço é agravado pelo fato de que, muitas vezes, a culpa pelo atraso, pela dificuldade ou pela “logística extra” recai sobre a própria pessoa com deficiência, como se nós fossemos causadores dos problemas.
Em outras palavras, a fadiga de acesso é o esgotamento físico, cognitivo e emocional vivenciado por pessoas com deficiência devido à necessidade constante de ensinar outras pessoas sobre suas necessidades de acessibilidade; solicitar e renegociar adaptações; usar sistemas, ferramentas e fluxos de trabalho mal projetados e contornar barreiras da falta de acessibilidade em todas as suas dimensões:
1. Arquitetônica: que prevê a ausência de barreiras físicas em todo e qualquer ambiente;
2. Atitudinal: o comportamento das pessoas em relação aos outros e suas diferenças, sem preconceitos e discriminações;
3. Comunicacional: que garante o direito e o acesso à informação sem barreiras na comunicação entre as pessoas, na expressão escrita, no acesso ao conteúdo de papel, audiovisuais e virtuais e que gera oportunidade, socialização e autonomia para todos;
4. Digital: recursos que possibilitam a navegação, a compreensão e a interação de qualquer pessoa na web, sem ajuda de ninguém. Uma internet acessível para todo mundo, que beneficia idosos, pessoas de baixo letramento e pessoas com deficiência. Para isso, usamos tecnologias assistivas;
5. Instrumental: acessibilidade que deve existir em todos os instrumentos, desde uma caneta, um compasso, uma régua. Tudo que envolve o uso de um instrumento deve envolver acessibilidade;
6. Metodológica: acessibilidade nas técnicas e métodos de ensino e de trabalho para atender a todas as inteligências, pois cada ser humano tem um estilo de aprendizagem. Ela se faz presente quando quem ensina observa o jeito de cada um aprender para seu melhor aproveitamento;
7. Natural: as barreiras não construídas pelo homem interferem na acessibilidade, como areia, pedras e penhascos, e, de alguma forma, impedem a presença das pessoas com deficiência;
8. Programática: planos, projetos, leis, normas de serviços, decretos, tudo que for operacional, com aspecto de normatizar condutas, não pode ter barreiras programáticas, pois trazem palavras ou informações que causam a exclusão das pessoas com deficiência.
Quando essas barreiras se acumulam, o resultado é um cansaço que não aparece em relatórios de produtividade, mas que impacta profundamente a saúde mental, as relações sociais e as trajetórias profissionais. Para ilustrar como a fadiga de acesso se materializa no cotidiano profissional, mulheres com deficiência compartilharam algumas histórias que vivenciaram:
Luzia Firmino, mulher com baixa visão e consultora de inclusão, relata que durante uma SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho) em uma indústria farmacêutica onde trabalhou, foi organizada uma dinâmica de “caça ao tesouro” em uma sala completamente escura, com pistas escritas em letras minúsculas. Impossibilitada de participar, a “solução” encontrada foi separá-la do grupo para que realizasse a atividade sozinha, enquanto todos aguardavam. O que deveria promover integração acabou reforçando exposição e exclusão.
Tabata Contri, atriz, cadeirante e consultora de inclusão, destaca que a fadiga de acesso começa antes mesmo de sair de casa. Ao acompanhar o marido músico em turnês, ela relata o desgaste de precisar explicar à equipe de produção sobre acessibilidade para, ainda assim, enfrentar hotéis sem quartos adequados, cadeiras de banho impróprias e banheiros onde foi necessário retirar portas para permitir sua passagem. Em um dos episódios mais simbólicos, Tabata foi desconvidada para ser madrinha de casamento porque o altar não era acessível.
Fabiana Machado, também consultora de inclusão, viveu a exclusão cotidiana no ambiente de trabalho ao não conseguir almoçar com a equipe, que frequentava restaurantes inacessíveis para ela. Dentro da empresa, o micro-ondas ficava em uma altura impossível de alcançar. A rotina era almoçar sozinha e esperar alguém retornar para aquecer sua comida. Em determinado momento, isso se tornou tão naturalizado que a equipe apagava a luz da sala ao sair para o almoço, com Fabiana ainda ali. Como se não houvesse ninguém na sala.
A fadiga de acesso também se manifesta em momentos que deveriam ser de descanso. Viagens se tornam um campo minado de transportes inacessíveis, hotéis que prometem acessibilidade inexistente e praias e atrações que só podem ser observadas à distância. O resultado é a restrição da convivência, a repetição dos mesmos destinos ou, muitas vezes, a desistência de sair.
Um exemplo marcante ocorreu com uma conhecida minha. Sua filha, adolescente com TDAH, foi enviada para fazer o ENEM em uma escola distante da sua e inacessível, onde foram concentradas todas as pessoas que declararam alguma deficiência.
Ela presenciou uma pessoa cadeirante sendo carregada escada acima e um jovem com muletas que confessou estar “segurando a vontade de ir ao banheiro para não precisar subir a escada novamente”. É impossível não imaginar o impacto disso no desempenho da prova.
Mesmo em espaços de fala e protagonismo, a fadiga de acesso persiste. Após 24 anos utilizando cadeira de rodas, ainda é comum eu precisar ser carregada para subir em palcos sem rampas adequadas. Mesmo chegando antes do horário, a espera pela “logística” faz parecer que o atraso é da pessoa com deficiência, reforçando a sensação de inadequação.
Essas experiências produzem um sentimento recorrente de incapacidade, exposição e culpa. A mensagem transmitida pela inacessibilidade é direta: algumas pessoas não são bem-vindas aqui e as consequências aparecem em comportamentos como:
– Isolamento social, para evitar situações de desgaste previsível;
– Dificuldades de encontrar moradia, especialmente em grandes cidades com imóveis pouco acessíveis, com sobrados e apartamentos muito pequenos;
– Redução da participação pública, por não querer ser “um acontecimento”.
Pessoas com deficiência estão cansadas, mas não podem carregar essa pauta sozinhas. A transformação exige pessoas aliadas da inclusão, dispostas a aprender, questionar padrões e agir intencionalmente.
Não se trata de apontar vilões. Na maioria das vezes, a exclusão nasce da falta de informação e da ausência de intenção. Ainda assim, seus efeitos são reais e profundos, impactando a saúde mental, a vida social e as oportunidades de carreira.
Acessibilidade não é privilégio, é direito. E quando ela existe, beneficia toda a sociedade. Enquanto pessoas com deficiência seguem “dando um jeito” para existir, o mundo precisa aprender a fazer a sua parte. Porque a energia de quem vive a fadiga de acesso não é infinita, e ninguém deveria se esgotar apenas para ter o direito de ser e estar como é.