É possível calcular o futuro?

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31 de julho de 2017 - 12h42

A morte de Kenneth Arrow, um dos maiores economistas dos nossos tempos, é um lembrete de que a maioria dos vencedores do Nobel de Economia também são matemáticos brilhantes. Além dele, vários outros vencedores do Nobel como John Nash, eram cientistas cujo trabalho se tornou relevante para a teoria econômica.

O conceito freudiano de “injúria narcisista” se aplica bem aos economistas. Eles sempre sofreram porque sua disciplina não é considerada uma ciência genuína. Para adquirir o status de ciência, fatos econômicos devem ser expressados em equações. Portanto, muitos economistas se tornaram matemáticos.

Foto: Reprodução

Em 1997, o Nobel de Economia foi concedido a Myron Scholes e Robert Merton, por terem criado um novo método de calcular o preço de derivados. Eles se uniram ao time do fundo de cobertura americano Long Term Capital Management, de Connecticut. Em 1998, no entanto, o fundo perdeu US$ 4, 6 bilhões e veio à falência dois anos depois. Por quê? De acordo com Karl Popper e Franco Modigliani (outro matemático que ganhou o Nobel de Economia), economistas interferem nos fenômenos que estudam. “Se eles preveem uma queda nos preços, a previsão vai contribuir para esta tendência que eles anteciparam”, afirma Popper.

A economia moderna está cada vez mais focando na identificação das escolhas possíveis, em vez de simplesmente calcular resultados. Para tocar um negócio, a inteligência emocional é tão importante quanto o intelecto racional.

O rebote dos mercados financeiros logo após a eleição do presidente Trump é melhor explicado pelo “espírito animal” identificado por Keynes do que pela análise financeira lógica. Nicolas Hayek não lançou a fábrica de relógios Swatch com uma fórmula matemática. Angela Merkel, que tem background como cientista, não faz a gestão da Alemanha com equações.

Mesmo nas ciências, os matemáticos nem sempre prevalecem. Além do motor a vapor, a outra grande revolução industrial do século 19 foi a eletricidade, enunciada por Michael Faraday em seu livro seminal, que tinha 332 páginas e nenhuma única equação matemática

Mesmo nas ciências, os matemáticos nem sempre prevalecem. Além do motor a vapor, a outra grande revolução industrial do século 19 foi a eletricidade. Seus princípios foram enunciadas por Michael Faraday em seu livro seminal, publicado pela primeira vez em 1839, chamado “Pesquisa experimental sobre eletricidade”: o livro tem 332 páginas e nenhuma única equação matemática.

Então por que estamos tão obcecados com a matemática, uma área que destrói as vidas de tantos outros jovens estudantes que, se não fosse ela, seriam considerados perfeitamente inteligentes? Essencialmente para selecioná-los antes que permitir que sigam os estudos econômicos. Quando centenas de estudantes querem ser aceitos em universidades, precisam ser filtrados. E como isso é feito? Através de exames onde existe apenas uma resposta correta para uma única questão específica, logo, problemas matemáticos. Tópicos econômicos nos quais muitas respostas diferentes são aceitáveis são muito difíceis de gerenciar, e não podem ser corrigidos em massa por assistentes.

A tragédia é que nossa abordagem desencoraja jovens brilhantes que não necessariamente têm um mindset científico. Eles frequentemente são forçados a aprender conceitos matemáticos complexos ou estatísticas avançadas que não terão uso algum em suas carreiras futuras. O que é pior: as equações os darão uma falsa sensação de segurança – se algo pode ser calculado, então deve ser verdadeiro. Ciências comportamentais, sociologia ou até psicologia poderiam ser mais úteis nesse sentido.

O quão danoso isto é para a criatividade de nossas crianças! Assim como Albert Einstein disse uma vez, “a lógica te levará de A para B, mas imaginação pode te levar a qualquer lugar”. Com a lógica, sempre repetiremos o passado, mas com imaginação podemos criar o futuro.

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