A conversa não é sua: o que as marcas ainda não entenderam em 2026
Em um cenário em que 84% da GenZ consome conteúdo de influenciadores diariamente, segundo o InstitutoZ, painel no Cannes Lions evidencia o esgotamento da ideia de que marcas conseguem partir do zero na construção cultural
No palco do Cannes Lions 2026, os dados da palestra da Effie Worldwide, com Carley Caldas (eos Products), Vincenzo Riili (IKEA Retail – Ingka Group) e Karina Wilsher (Anomaly), trazem um argumento que o mercado intui mas ainda resiste em operacionalizar: marcas que vencem não gastam mais, gastam melhor. E, acima de tudo, ouvem mais.
Há uma ilusão persistente no marketing que a sessão veio desmontar, de que marcas podem criar conversas. É o sonho de que um briefing seja capaz de gerar uma narrativa do zero e torná-la pertencente à empresa que a produziu.
Em um momento em que 84% da GenZ consome conteúdo de influenciadores diariamente, segundo dados do InstitutoZ, núcleo de pesquisa da Trope-se, essa premissa é, ao mesmo tempo, ineficaz e prepotente. As conversas sobre marcas já existem. Elas estão nos comentários, no dark social, nos vídeos orgânicos, nas resenhas honestas. Em tempos de creator economy, que todos têm voz e marcas são construídas coletivamente por quem consome, criar uma conversa para si é um equívoco estratégico.
Foi exatamente o oposto que fez da eos Products a marca mais eficaz do mundo duas vezes seguidas. Carley Caldas, SVP de Marketing e Criatividade da eos, descreveu o processo: “sabemos quem são seus crushs nos livros, sabemos quem elas admiram na cultura pop, a música que ouvem e buscamos aqueles momentos que criam uma narrativa”. Essa escuta é uma forma de imersão cultural.
Amplificar as conversas é o modelo nativo da creator economy. É o que explica por que a eos ganhou o Iridium, o prêmio de campanha mais eficaz do mundo, duas vezes de forma inédita. Se a estratégia de amplificação é tão eficaz, por que a maioria das empresas ainda não a adota? Uma resposta está nos dados do InstitutoZ, que aponta que 75% das empresas acreditam que a GenZ tem impacto “limitado” ou “nulo” nas suas vendas, subestimando a forma como a geração reverbera conversas.
Com 57 anos de dados, 130 mercados e 58 parceiros globais, a Effie provou o que muitos dizem intuitivamente: o que diferencia marcas que sustentam sucesso não é verba, é decisão. Decisão de conhecer o consumidor a fundo, de usar a linguagem real dele, de manter identidade mesmo sob pressão de varejistas e tendências, e de ter métricas claras desde o início. Para a creator economy, o sinal mais importante veio de Carley Caldas: a maior campanha de efetividade do mundo não foi feita com grandes produções, foi feita amplificando o que os consumidores já estavam dizendo.
Para a IKEA, o desafio de Vincenzo Riili é o de qualquer grande marca: manter agilidade e identidade à medida que escala. A resposta foi simples e difícil ao mesmo tempo: todo mundo na empresa precisa saber o que a marca é, com clareza suficiente para tomar decisões rápidas sem depender de aprovação central. Deve-se lembrar que, para usar a linguagem real, o time jurídico precisa estar dentro da conversa desde o início, não chegando apenas ao final para vetar. É o caso do Tinder, que envolve o jurídico desde o começo das discussões, e do BK, que mantém uma linha de orçamento específica para iniciativas que eventualmente podem dar errado.
Empresas que não definem métricas de sucesso antes de ativar uma campanha vão sempre achar que o impacto foi limitado, porque não sabiam o que estavam procurando. Efetividade não é medida retroativamente, é desenhada antes,no planejamento e na definição de objetivos. Ainda segundo o InstitutoZ, 1 em cada 3 empresas não têm sequer uma estratégia para a GenZ. Acaba se tornando uma lacuna de método. Sem estratégia, não há como medir. Sem medição, não há como provar. Sem prova, o marketing vira só um centro de custos.
Vincenzo Riili, CMO da IKEA Retail, traz uma solução prática: “pare de separar marca e performance. Quando você conversa com o CEO, o CFO não está falando de marketing, então é por aí que tudo precisa começar”. O erro do marketing começa ao apresentar marca e performance como frentes isoladas. Enquanto CEOs e CFOs buscam receita, crescimento e ROI, o marketing insiste em falar de awareness e alcance. É uma língua que o topo da empresa desvaloriza e, como consequência, perde orçamento e autonomia. Conversas essas que falamos há anos.
No fim, tudo é sobre cultura organizacional e formas de trabalho. A Effie comprova o que o mercado sabe, mas na prática ignora: criatividade é uma vantagem competitiva real. Ela nasce da escuta, exige coragem e colaboração, e só se sustenta com uma cultura sólida e indicadores claros. É esse o divisor de águas entre marcas que constroem conexões reais com as novas gerações e aquelas que continuam falando sozinhas.