Forward, not flawless
Ou, traduzindo para o português: todo mundo fala das cachaças que eu bebo, mas não dos tombos que eu levo
Esse foi o primeiro slide da palestra de Alex Weller, VP de Criação da Patagonia.
Nela, Weller mostrou como integridade, transparência e propósito podem impulsionar crescimento, criatividade e impacto, sem que uma marca perca sua essência ao ganhar escala.
Ainda no terceiro dia do Festival de Cannes, enquanto eu já acumulava uma mão cheia de painéis que poderiam ter sido um email, essa foi uma bela exceção.
Aconteceu numa sala pequena, mas com gente sentada até no chão. Um sinal de que as pessoas estão, sim, em busca de conversas mais honestas. E elas visivelmente precisam de mais espaço.
Um alento, num festival soterrado por uma avalanche de palestras patrocinadas por marcas gigantes, das quais eu esperava muito, mas saí decepcionado.
Uma fila daquele tamanho do jogo da cobrinha (lembra?) para assistir a dois executivos de uma big tech de IA dizendo que “a IA pode ser uma aliada, ou um funcionário”. Sério?
Todo mundo falando de sucesso, num mundo em que talvez devêssemos estar discutindo mais as incertezas. Ou os fracassos.
Palmas para a Patagonia, que há décadas constrói um posicionamento claro e comprometido, e não apenas um discurso. E que fala abertamente sobre seus erros.
A Patagonia coloca propósito no centro do modelo de negócios e aceita crescer mais devagar para manter essa coerência.
Mais do que vender produtos, usa a criatividade para promover comportamentos e gerar conversas.
Desde os anos 1980, a marca doa parte de suas vendas para grupos ambientais. Em 2022, seu fundador, Yvon Chouinard, transferiu a propriedade da empresa para uma estrutura criada para garantir que seus lucros futuros sejam destinados à proteção ambiental.
Num tempo em que um bilionário se torna trilionário vendendo foguetes para fugir do planeta, dá esperança ver uma marca de consumo usando seus recursos para cuidar melhor dele.
Gostaria de ver mais coragem, mais espaços para aqueles que não têm vergonha de falar que o sucesso é um resultado que inevitavelmente passa por fracassos e que, como dizia Salvador Dali, não existe perfeição.