Diário de Cannes

Ninguém chega sozinha

Encontro de mulheres do mercado publicitário no festival reforça a importância da conexão e do apoio mútuo

Cris Pereira Heal

Sócia e vice-presidente da Batux 24 de junho de 2026 - 16h22

Na terça-feira, no final da tarde, a Batux recebeu a comunidade MoreGirls para um encontro que só foi possível graças à parceria da Mosaico e da Santeria, que abriram as portas — ou melhor, o barco — para que ele acontecesse.

A proposta era simples: reunir mulheres da nossa indústria para encerrar o dia, conversar, encontrar amigas, conhecer gente nova e criar conexões que dificilmente aconteceriam apenas nos corredores do Palais.

E talvez tenha sido justamente a simplicidade que tornou aquele encontro tão especial. Enquanto as conversas aconteciam, fiquei observando a diversidade de histórias reunidas naquele mesmo espaço.

Estavam ali mulheres que hoje ajudam a construir e representar diferentes frentes da nossa indústria. Laura e Larissa, da MoreGirls. Ana Passarelli, que acaba de assumir o Sinapro-SP. Marianna Souza, CEO da Apro. Sandra Martinelli, CEO da ABA. Heloisa Santana, presidente-executiva da Ampro. Mas também mulheres em outros momentos da carreira.

Talvez tenha sido justamente essa mistura que tornou o encontro tão rico. Experiências diferentes, trajetórias diferentes e pontos de vista diferentes compartilhando o mesmo espaço.

Em determinado momento, ouvi uma das convidadas contar que conquistou seu primeiro emprego por meio da rede criada pela MoreGirls. Agora, alguns anos depois, estava ali ajudando outras mulheres a encontrar oportunidades. Era a sua vez de retribuir.

Aquilo me levou de volta a uma experiência que vivi alguns meses atrás, durante um retiro conduzido pela Mabel Feres, na Fazenda Lila. Em uma das práticas, fomos convidadas a refletir sobre quatro palavras: presença, perspectiva, propósito e conexão.

Sem perceber, comecei a encontrar aquelas quatro palavras espalhadas pelas conversas daquela tarde.

Presença, porque em um festival que nos convida a correr o tempo inteiro, aquelas mulheres escolheram parar por algumas horas. Escolheram estar ali.

Perspectiva, porque ouvir trajetórias tão diferentes nos lembra que não existe uma única forma de construir uma carreira. E porque, de vez em quando, vale a pena parar para observar os próprios pensamentos. O que estamos buscando neste momento? O que fez sentido na escolha de estar aqui? O que queremos levar dessa experiência quando Cannes terminar?

Propósito, porque encontros como aquele não existem apenas para preencher uma agenda social. Eles existem porque acreditamos que compartilhar experiências, abrir portas e apoiar outras mulheres torna a nossa indústria mais forte.

E conexão, porque nenhuma das histórias que ouvi naquela tarde começou naquele barco. Elas começaram muito antes.

Começaram quando alguém fez uma indicação, compartilhou uma oportunidade, abriu uma porta, fez uma apresentação, recomendou uma colega, apostou em uma mulher talentosa ou simplesmente estendeu a mão.

Talvez por isso a frase que ficou comigo depois daquele encontro tenha sido tão simples: ninguém chega a Cannes sozinha.

Chegamos carregando a contribuição de mentoras, líderes, colegas, amigas, parceiros, equipes e comunidades que, de alguma forma, ajudaram a construir o caminho até aqui.

Em um festival que discute o futuro da criatividade, da tecnologia e dos negócios, essa foi uma das reflexões que levarei comigo na volta para casa.

As ideias podem até mover mercados.

Mas são as pessoas que movem as ideias.